Possessão: há a posse física do encarnado?

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Enviado por: Humberto Ribeiro
Email: humbertoribeiro9@gmail.com

E o homem que estava possesso do espírito mau pulou sobre eles com tanta violência,
que tiveram de fugir daquela casa, sem roupas e cobertos de ferimentos.
(Atos 19, 16)

Introdução

Por várias vezes nos deparamos com essa dúvida. Muitas pessoas nos perguntam se, nos casos de obsessão, há verdadeiramente uma posse física do encarnado, quer dizer, o espírito obsessor entraria no corpo do obsidiado, passando a agir por ele.

As nossas experiências nos levam a crer que, em alguns casos, sim. É importante ressaltar que não estamos generalizando para todos os casos de obsessão. Vamos contar uma ocorrência que nos levou a isso.

Realidade x teoria: Um paciente em obsessão

Cerca de ano e meio atrás, fomos chamados para ajudar uma moça que já estava hospitalizada, mas que parentes perceberam estar ela influenciada por espíritos. Quando chegamos ao local onde se encontrava, vimos que a possibilidade de estar mesmo sob influência espiritual era evidente. Falava com voz masculina coisas que em seu estado normal não lhe era habitual. Tinha segurando-lhes os braços dois homens fortes, restringindo-lhe os movimentos, pois queria agredir a si mesma. Tivemos notícias que o pároco da cidade havia passado por lá, disse que, quando ela ficasse boa, ele voltaria. Como se diz popularmente: aí até nós!

A equipe de médiuns, que nos acompanhava, também teve a mesma impressão que nós. Passamos, então, a estabelecer diálogo com os espíritos. Vários se apresentaram, mas ao final, conseguimos libertá-la daquelas influências. Voltou ao seu normal.

Passados alguns dias, novamente fomos chamados para ajudar essa moça. Desta vez, estava em sua própria residência, com os mesmos sintomas, falando com voz que não era a sua, e tentando se agredir. Na oportunidade conversamos com vários espíritos. A situação estava difícil, pois mal acabávamos de convencer um espírito a se afastar da moça, “entrava” outro. E, assim, ficamos por mais de uma hora. Por fim, dada a nossa incapacidade de resolver a questão, recomendamos aos familiares que a levasse ao Hospital Espírita André Luiz, na capital mineira, para avaliação e tratamento, se a situação o exigisse.

A equipe do Hospital constatou que a moça, realmente, estava sob forte influência espiritual, recomendando que seu nome fosse levado para a reunião específica de desobsessão e que, por um tempo longo, tomasse passe semanalmente, além de ter receitado medicamentos para tranqüilizar a paciente, de conformidade com os procedimentos médicos para o caso.

Daí sempre que podia, a família a levava ao Grupo Espírita que freqüentávamos. Na hora do passe, era um sufoco, pois a moça fechava os olhos, e pronto, entrava em sintonia com os espíritos que a perseguiam. Isso fez com que orientássemos que não a deixassem concentrar-se, quando no momento do passe.

Entretanto, numa certa vez, após adentrar a cabine de passes, entrou em transe, numa nítida sintonia espiritual. Aliás, nunca vimos uma pessoa sintonizar tão facilmente quanto ela. Fomos imediatamente chamados para ajudar. Embora a situação fosse extremamente inadequada, iniciamos o diálogo com o espírito que a assediava, e, com muito custo, conseguimos dele a promessa de que iria “sair” da moça. Imediatamente após ele dizer isso, a moça perdeu todo o controle do corpo, caindo ao chão, sem que pudéssemos fazer absolutamente nada, dada a rapidez com que isso aconteceu. Ajudado pelos companheiros, mas com dificuldade, a colocamos numa cadeira, tentando reanimá-la, o que ocorreu poucos minutos depois. Não se lembrou de absolutamente nada do que lhe ocorreu nesse período de tempo. Saiu naturalmente como entrou, de forma que quem a viu sair da cabine de passes, não percebeu nada do ocorrido.

Foi a partir desse episódio que passamos a questionar a afirmativa de que todos os fenômenos mediúnicos têm como base a mente, em outras palavras, tudo ocorre em nível de sintonias mentais, entre os envolvidos. Mas, o fato ocorrido, nos remetia a acreditarmos que havia realmente uma posse física, o que, a nosso ver, justificava a queda da moça após a saída do espírito, se assim podemos nos expressar, não conseguindo, o seu próprio espírito, voltar a tempo de controlá-lo de modo a evitar a queda.

Essa questão foi amplamente debatida entre os membros do Grupo, e na ocasião, chegou às nossas mãos um texto publicado no site Portal do Espírito, em que o articulista defendia, ou melhor, demonstrava que Kardec havia falado algo a respeito disso. Vejamos, então nas obras kardequianas o que podemos encontrar.

O assunto nas Obras Básicas

O que encontramos no que disse Kardec iremos apresentar em ordem cronológica, para que fique clara a evolução do entendimento sobre o assunto.

1) Abr/1857 – O Livro dos Espíritos

Abordado nas seguintes questões:

473. Pode um Espírito tomar temporariamente o invólucro corporal de uma pessoa viva, isto é, introduzir-se num corpo animado e obrar em lugar do outro que se acha encarnado neste corpo?

“O Espírito não entra em um corpo como entras numa casa. Identifica-se com um Espírito encarnado, cujos defeitos e qualidades sejam os mesmos que os seus, a fim de obrar conjuntamente com ele. Mas, o encarnado é sempre quem atua, conforme quer, sobre a matéria de que se acha revestido. Um Espírito não pode substituir-se ao que está encarnado, por isso que este terá que permanecer ligado ao seu corpo até ao termo fixado para sua existência material.”

474. Desde que não há possessão propriamente dita, isto é, coabitação de dois Espíritos no mesmo corpo, pode a alma ficar na dependência de outro Espírito, de modo a se achar subjugada ou obsidiada ao ponto de a sua vontade vir a achar-se, de certa maneira, paralisada?

“Sem dúvida, e são esses os verdadeiros possessos. Mas, é preciso saibas que essa dominação não se efetua nunca sem que aquele que a sofre o consinta, quer por sua fraqueza, quer por desejá-la. Muitos epilépticos ou loucos, que mais necessitavam de médico que de exorcismos, têm sido tomados por possessos”.

O vocábulo possesso, na sua acepção vulgar, supõe a existência de demônios, isto é, de uma categoria de seres maus por natureza, e a coabitação de um desses seres com a alma de um indivíduo, no seu corpo. Posto que, nesse sentido, não há demônios e que dois Espíritos não podem habitar simultaneamente o mesmo corpo, não há possessos na conformidade da idéia a que esta palavra se acha associada. O termo possesso só se deve admitir como exprimindo a dependência absoluta em que uma alma pode achar-se com relação a Espíritos imperfeitos que a subjuguem.

Nessa circunstância, não há nenhuma margem para dúvidas de que não há mesmo possessão física, mas subjugação. E Kardec coloca por que não quer usar o termo possessão, já que poderiam relacioná-lo com demônios, que não existem para o Espiritismo, senão na figura de espíritos imperfeitos dedicados ao mal.

2) Jan/1861 – Livro dos Médiuns

No capítulo XXIII, intitulado Da Obsessão, Kardec volta novamente ao assunto.

240. A subjugação é uma constrição que paralisa a vontade daquele que a sofre e o faz agir a seu mau grado. Numa palavra: o paciente fica sob um verdadeiro jugo.

A subjugação pode ser moral ou corporal. No primeiro caso, o subjugado é constrangido a tomar resoluções muitas vezes absurdas e comprometedoras que, por uma espécie de ilusão, ele julga sensatas: é uma como fascinação. No segundo caso, o Espírito atua sobre os órgãos materiais e provoca movimentos involuntários. Traduz-se, no médium escrevente, por uma necessidade incessante de escrever, ainda nos momentos menos oportunos. Vimos alguns que, à falta de pena ou lápis, simulavam escrever com o dedo, onde quer que se encontrassem, mesmo nas ruas, nas portas, nas paredes.

Vai, às vezes, mais longe a subjugação corporal; pode levar aos mais ridículos atos. Conhecemos um homem, que não era jovem, nem belo e que, sob o império de uma obsessão dessa natureza, se via constrangido, por uma força irresistível, a pôr-se de joelhos diante de uma moça a cujo respeito nenhuma pretensão nutria e pedi-la em casamento. Outras vezes, sentia nas costas e nos jarretes uma pressão enérgica, que o forçava, não obstante a resistência que lhe opunha, a se ajoelhar e beijar o chão nos lugares públicos e em presença da multidão. Esse homem passava por louco entre as pessoas de suas relações; estamos, porém, convencidos de que absolutamente não o era; porquanto tinha consciência plena do ridículo do que fazia contra a sua vontade e com isso sofria horrivelmente.

241. Dava-se outrora o nome de possessão ao império exercido por maus Espíritos, quando a influência deles ia até à aberração das faculdades da vítima. A possessão seria, para nós, sinônimo da subjugação. Por dois motivos deixamos de adotar esse termo: primeiro, porque implica a crença de seres criados para o mal e perpetuamente votados ao mal, enquanto que não há senão seres mais ou menos imperfeitos, os quais todos podem melhorar-se; segundo, porque implica igualmente a idéia do assenhoreamento de um corpo por um Espírito estranho, de uma espécie de coabitação, ao passo que o que há é apenas constrangimento. A palavra subjugação exprime perfeitamente a idéia. Assim, para nós, não há possessos, no sentido vulgar do termo, há somente obsidiados, subjugados fascinados.

Ainda aqui Kardec não muda de opinião, mantém a que possuía a respeito desse assunto, apenas esclarecendo-a mais detalhadamente do que havia feito anteriormente.

3) Dez/1863 – Revista Espírita

Aqui Kardec muda de opinião, retificando o que havia dito anteriormente, após ter uma prova que há possessão física sim. Vejamos quando ele narra o seguinte:

Um caso de possessão

Senhoria Julie

Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar da palavra, mas subjugados; retornamos sobre esta afirmação muito absoluta, porque nos está demonstrado agora que pode ali haver possessão verdadeira, quer dizer, substituição, parcial no entanto, de um Espírito errante ao Espírito encarnado. Eis um primeiro fato que é a prova disto, e que apresenta o fenômeno em toda a sua simplicidade. (…)

(…) Ele [o espírito] declara que, querendo conversar com seu antigo amigo, aproveitou de um momento em que o Espírito da Senhora A…, a sonâmbula, estava afastado de seu corpo, para se colocar em seu lugar. (…)

P. Que fez durante esse tempo o Espírito da senhora A…? – R. Estava lá, ao lado, me olhava e ria de ver-me nesse vestuário.

Transcrevemos, como viram, apenas o que nos interessou para o nosso estudo. Entretanto, partindo das próprias afirmações de Kardec, algumas pessoas colocam como ainda não doutrinária essa questão, por estar apenas na Revista Espírita.

De fato, é perfeitamente aceitável pensar assim diante do que Kardec disse:

A Revista é, freqüentemente, para nós, um terreno de ensaio destinado a sondar a opinião dos homens e dos Espíritos sobre certos princípios, antes de admiti-los como partes constitutivas da Doutrina. (A Gênese, Introdução, 1868).

Teríamos por aqui também dado esse assunto por encerrado, já que a evidência era demasiadamente forte para contestarmos, apesar de, particularmente, não vermos a questão dessa forma. Pois, para nós, a mudança de opinião é clara demais na Revista Espírita, não se tratando de questão que teria sido colocada para ver as opiniões sobre o assunto.

Mas continuando as pesquisas deparamos com algo que não deixará dúvidas, ficando claro que faz parte, sim, dos princípios constitutivos da Doutrina. Vejamos, então, o que encontramos, por último, no que pesquisamos.

4) Jan/1868 – A Gênese

Essa questão volta agora em definitivo nesse livro, no capítulo XIV, Os Fluidos, quando, tratando das obsessões, Kardec diz:

46 – Assim como as enfermidades resultam das imperfeições físicas que tornam o corpo acessível às perniciosas influências exteriores, a obsessão decorre sempre de uma imperfeição moral, que dá ascendência a um Espírito mau, A uma causa física, opõe-se uma força física; a uma causa moral preciso é se contraponha uma força moral. Para preservá-lo das enfermidades, fortificasse o corpo; para garanti-la contra a obsessão, tem-se que fortalecer a alma; donde, para o obsidiado, a necessidade de trabalhar por se melhorar a si próprio, o que as mais das vezes basta para livrá-lo do obsessor, sem o socorro de terceiros. Necessário se torna este socorro, quando a obsessão degenera em subjugação e em possessão, porque nesse caso o paciente não raro perde a vontade e o livre-arbítrio.

Quase sempre a obsessão exprime vingança tomada por um Espírito e cuja origem freqüentemente se encontra nas relações que o obsidiado manteve com o obsessor, em precedente existência.

Nos casos de obsessão grave, o obsidiado fica como que envolto e impregnado de um fluido pernicioso, que neutraliza a ação dos fluidos salutares e os repele. É daquele fluido que importa desembaraçá-lo, Ora, um fluído mau não pode ser eliminado por outro igualmente mau. Por meio de ação idêntica à do médium curador, nos casos de enfermidade, preciso se faz expelir um fluido mau com o auxílio de um fluido melhor.

Nem sempre, porém, basta esta ação mecânica; cumpre, sobretudo, atuar sobre o ser inteligente, ao qual é preciso se possua o direito de falar com autoridade, que, entretanto, falece a quem não tenha superioridade moral, Quanto maior esta for, tanto maior também será aquela.

Mas, ainda não é tudo: para assegurar a libertação da vítima, indispensável se torna que o Espírito perverso seja levado a renunciar aos seus maus desígnios; que se faça que o arrependimento desponte nele, assim como o desejo do bem, por meio de instruções habilmente ministradas, em evocações particularmente feitas com o objetivo de dar-lhe educação moral. Pode-se então ter a grata satisfação de libertar um encarnado e de converter um Espírito imperfeito.

O trabalho se torna mais fácil quando o obsidiado, compreendendo a sua situação, para ele concorre com a vontade e a prece. Outro tanto não sucede quando, seduzido pelo Espírito que o domina, se ilude com relação às qualidades deste último e se compraz no erro a que é conduzido, porque, então, longe de a secundar, o obsidiado repele toda assistência. É o caso da fascinação, infinitamente mais rebelde sempre, do que a mais violenta subjugação. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXIII.)

Em todos os casos de obsessão, a prece é o mais poderoso meio de que se dispõe para demover de seus propósitos maléficos o obsessor.

47. – Na obsessão, o Espírito atua exteriormente, com a ajuda do seu perispírito, que ele identifica com o do encarnado, ficando este afinal enlaçado por uma como que teia e constrangido a proceder contra a sua vontade.

Na possessão, em vez de agir exteriormente, o Espírito atuante se substitui, por assim dizer, ao Espírito encarnado; toma-lhe o corpo para domicílio, sem que este, no entanto, seja abandonado pelo seu dono, pois que isso só se pode dar pela morte. A possessão, conseguintemente, é sempre temporária e intermitente, porque um Espírito desencarnado não pode tomar definitivamente o lugar de um encarnado, pela razão de que a união molecular do perispírito e do corpo só se pode operar no momento da concepção. (Cap. XI, nº 18.)

De posse momentânea do corpo do encarnado, o Espírito se serve dele como se seu próprio fora: fala pela sua boca, vê pelos seus olhos, opera com seus braços, conforme o faria se estivesse vivo. Não é como na mediunidade falante, em que o Espírito encarnado fala transmitindo o pensamento de um desencarnado; no caso da possessão é mesmo o último que fala e obra; quem o haja conhecido em vida, reconhece-lhe a linguagem, a voz, os gestos e até a expressão da fisionomia.

48. – Na obsessão há sempre um Espírito malfeitor. Na possessão pode tratar-se de um Espírito bom que queira falar e que, para causar maior impressão nos ouvintes, toma do corpo de um encarnado, que voluntariamente lho empresta, como emprestaria seu fato a outro encarnado. Isso se verifica sem qualquer perturbação ou incômodo, durante o tempo em que o Espírito encarnado se acha em liberdade, como no estado de emancipação, conservando-se este último ao lado do seu substituto para ouvi-lo.

Quando é mau o Espírito possessor, as coisas se passam de outro modo. Ele não toma moderadamente o corpo do encarnado, arrebata-o, se este não possui bastante força moral para lhe resistir. Fá-lo por maldade para com este, a quem tortura e martiriza de todas as formas, indo ao extremo de tentar exterminá-lo, já por estrangulação, já atirando-o ao fogo ou a outros lugares perigosos. Servindo-se dos órgãos e dos membros do infeliz paciente, blasfema, injuria e maltrata os que o cercam; entrega-se a excentricidades e a atos que apresentam todos os caracteres da loucura furiosa.

São numerosos os fatos deste gênero, em diferentes graus de intensidade, e não derivam de outra causa muitos casos de loucura. Amiúde, há também desordens patológicas, que são meras conseqüências e contra as quais nada adiantam os tratamentos médicos, enquanto subsiste a causa originária. Dando a conhecer essa fonte donde provém uma parte das misérias humanas, o Espiritismo indica o remédio a ser aplicado: atuar sobre o autor do mal que, sendo um ser inteligente, deve ser tratado por meio da inteligência. (1).

49. – São as mais das vezes individuais a obsessão e a possessão; mas, não raro são epidêmicas. Quando sobre uma localidade se lança uma revoada de maus Espíritos, é como se uma tropa de inimigos a invadisse. Pode então ser muito considerável o número dos indivíduos atacados. (2).

__________

(1) Casos de cura de obsessões e de possessões: Revue Spirite, dezembro de 1863, pág., 373; – janeiro de 1864, pág. 11; – junho de 1864, pág. 168; – janeiro de 1865, pág. 5; – junho de 1865, pág. 172; – fevereiro de 1868, pág. 38; – junho de 1867, pág. 174.

(2) Foi exatamente desse gênero a epidemia que, faz alguns anos, atacou a aldeia de Morzine na Sabóia. Veja-se o relato completo dessa epidemia na Revue Spirite de dezembro de 1862, pág. 353; janeiro, fevereiro, abril e maio de 1863, págs. 1, 33, 101 e 133.

5) Fev/1869 – Revista Espírita

Na narrativa de Kardec a respeito de um espírito que não acreditava ter morrido, mas apenas sonhando, podemos encontrar mais alguma coisa sobre o assunto de que estamos tratando. Vejamos:

Na sessão da Sociedade de Paris, de 8 de janeiro, o mesmo Espírito veio se manifestar de novo, não pela escrita, mas pela palavra, em se servindo do corpo do Sr. Morin, em sonambulismo espontâneo. Ele falou durante uma hora, e isso foi uma cena das mais curiosas, porque o médium tomou a sua pose, seus gestos, sua voz, sua linguagem ao ponto que aqueles que o tinham visto o reconheceram sem dificuldade. (…)

Numa outra reunião, um Espírito deu sobre este fenômeno a comunicação seguinte:

Há aqui, uma substituição de pessoa, uma simulação. O Espírito encarnado recebe a liberdade ou cai na inação. Digo inércia, quer dizer, a contemplação daquilo que se passa. Ele está na posição de um homem que empresta momentaneamente a sua habitação, e que assiste às diferentes cenas que se realizam com a ajuda de seus móveis. Se gosta mais de gozar da sua liberdade, ele o pode, a menos que não haja para ele utilidade em permanecer espectador.

Não é raro que um Espírito atue e fale com o corpo de um outro; deveis compreender a possibilidade deste fenômeno, então que sabeis que o Espírito pode se retirar com o seu perispírito mais ou menos longe de seu envoltório corpóreo. Quando esse fato ocorre sem que nenhum Espírito disto se aproveite para ocupar o lugar, há a catalepsia. Quando um Espírito deseja para ali se colocar para agir, toma um instante a sua parte na encarnação, une o seu perispírito ao corpo adormecido, desperta-o por esse contato e restitui o movimento à máquina; mas os movimentos, a voz não são mais os mesmos, porque os fluidos perispirituais não afetam mais o sistema nervoso do mesmo modo que o verdadeiro ocupante.

Essa ocupação jamais pode ser definitiva; seria preciso, para isso, a desagregação absoluta do primeiro perispírito, o que levaria forçosamente à morte. Ela não pode mesmo ser de longa duração, pela razão de que o novo perispírito, não tendo sido unido a esse corpo desde a sua formação, não tem nele raízes, não estando modelado sobre esse corpo, não está apropriado ao desempenho dos órgãos; o Espírito intruso não está numa posição normal; ele é embaraçado em seus movimentos e é porque deixa essa veste emprestada desde que dela não tenha mais necessidade.

Aqui, então, diante do assunto incluído nas Obras Básicas, não há mais como contestar não ser tema constitutivo da Doutrina, embora, como já o dissemos, já o aceitávamos por estar tão objetivamente na Revista Espírita, e como resposta à experiência pessoal que tivemos, relatada anteriormente. A novidade é que Kardec afirma que até um Espírito bom poderá possuir o corpo de um encarnado, desde que as condições o exijam.

Opinião de Léon Denis

No capítulo XIX – Transes e Incorporação do livro No Invisível, Léon Denis fala justamente daquilo que estamos presentemente estudando. Vamos ver então o que disse o sucessor de Kardec:

O estado de transe é esse grau de sono magnético que permite ao corpo fluídico exteriorizar-se, desprender-se do corpo carnal, e à alma tornar a viver por um instante sua vida livre e independente. A separação, todavia, numa é completa; a separação absoluta seria a morte…. No transe, o médium fala, move-se, escreve automaticamente; desses atos, porém, nenhuma lembrança conserva ao despertar.

O estado de transe pode ser provocado, quer pela ação de um magnetizador, quer pela de um Espírito. Sob o influxo magnético, os laços que unem os dois corpos se afrouxam. A alma, com seu corpo sutil, vai-se emancipando pouco a pouco; recobra o uso de seus poderes ocultos, comprimidos pela matéria. Quanto mais profundo é o sono, mais completo vem a ser o desprendimento. (…)

No corpo do médium, momentaneamente abandonado, pode dar-se uma substituição de Espírito. É o fenômeno das incorporações. A alma de um desencarnado, mesmo a alma de um vivo adormecido, pode tomar o lugar do médium e servir-se de seu organismo material, para se comunicar pela palavra e pelo gesto com as pessoas presentes.

Nesse ponto Léon Denis cita Dr. Oliver Lodge e o professor Myers como testemunhos da realidade desses fatos. E continuando, lemos:

Indagam certos experimentadores: o Espírito do manifestante se incorpora efetivamente no organismo do médium? Ou opera ele antes, a distância, pela sugestão mental e pela transmissão de pensamento, como o pode fazer o Espírito exteriorizado do sensitivo?

Um exame atento dos fatos nos leva a crer que essas duas explicações são igualmente admissíveis, conforme os casos. As citações que acabamos de fazer provam que a incorporação pode ser real e completa. É mesmo algumas vezes inconsciente, quando, por exemplo, certos Espíritos pouco adiantados são conduzidos por uma vontade superior ao corpo do médium e postos em comunicação conosco, a fim de serem esclarecidos sobre sua verdadeira situação. Esses Espíritos, perturbados pela morte, acreditam ainda, muito tempo depois, pertencerem à vida terrestre. Não lhes permitindo seus fluidos grosseiros o entrarem em relação com os Espíritos mais adiantados, são levados aos grupos de estudo, para serem instruídos acerca de sua nova condição. É difícil às vezes fazer-lhes compreender que abandonaram a vida carnal, e sua estupefação atinge o cômico, quando, convidados a comparar o organismo que momentaneamente animam com o que possuíam na Terra, são obrigados a reconhecer o seu engano. Não se poderia duvidar, em tal caso, na incorporação completa do Espírito.

Noutras circunstâncias, a teoria da transmissão, a distância, parece melhor explicar os fatos. As impressões oriundas de fora são mais ou menos fielmente percebidas e transmitidas pelos órgãos. Ao lado de provas de identidade, que nenhuma hesitação permitem sobre a autenticidade do fenômeno e intervenção dos Espíritos, verificam-se, na linguagem do sensitivo em transe, expressões, construções de frases, um modo de pronunciar que lhe são habituais. O Espírito parece projetar o pensamento no cérebro do médium, onde adquire, de passagem, formas de linguagem familiares a este. A transmissão se efetua em tal caso no limite dos conhecimentos e aptidões do sensitivo, em termos vulgares ou escolhidos, conforme o seu grau de instrução. Daí também certas incoerências que se devem atribuir à imperfeição do instrumento.

Ao despertar, o Espírito do médium perde toda consciência das impressões recebidas no sentido de liberdade, do mesmo modo que não guardará o menor conhecimento do papel que seu corpo tenha desempenhado durante o transe. Os sentidos psíquicos, de que por um momento haviam readquirido a posse, se extinguem de novo; a matéria estende o seu manto; a noite se produz; toda recordação de desvanece. O médium desperta num estado de perturbação, que lentamente se dissipa.

As colocações de Léon Denis, vêm corroborar o que o próprio Kardec fez sobre a possessão. Agora, mais do que nunca, ficamos convictos dessa realidade, uma vez que todas as colocações estão coerentes entre si, não havendo, portanto, algo que demonstre qualquer contradição entre elas.

Conclusão

O que aprendemos como uma oportuna lição, é que sempre devemos fazer nossas pesquisas em todos os livros de Kardec, até que não tenhamos a opinião final, não podemos ficar com a primeira opinião que venha a aparecer. Conforme ficou demonstrado nesse estudo, Kardec mudou de opinião sobre a possessão, daí poderemos dizer que não colocou nada como verdade absoluta, mas como sempre, passível de novos entendimentos. Vai mais longe: “Se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro sobre um ponto, modificar-se-á sobre esse ponto; se uma nova verdade se revela, ele a aceita” (A Gênese, pág. 40).

Devemos, pois, reformular nossos conceitos sobre a possessão, tendo em vista que deverá prevalecer a última opinião de Kardec, e é ela que vem dizer da possibilidade real da possessão, por um espírito, do corpo de um encarnado. Poderemos dizer que na subjugação o encarnado não quer fazer, mas é constrangido a fazer aquilo que o espírito obsessor deseja que ele faça. A atuação do espírito é por envolvimento. Nessa hipótese ele, o encarnado, está consciente da situação, mas nada pode fazer para evitá-la. Enquanto que na possessão o encarnado não tem a mínima idéia do que está lhe acontecendo, faz, sem tomar consciência, a vontade do espírito, conforme percebemos senão em todos, pelo menos na maioria dos casos de que tomamos conhecimento. Nessa situação é completamente inconsciente, não oferecendo a mínima resistência à vontade do obsessor, que faz dele uma marionete, se assim podemos nos expressar.

Por outro lado, poderemos ainda acrescentar, apenas para reforçar essa idéia, algumas coisas que encontramos no livro Nos Domínios da Mediunidade, Chico Xavier, ditado por André Luiz.

Vejamos os trechos:

“Falando a respeito de determinado médium está dito: ‘Quando empresta o veículo a entidades dementes ou sofredoras, reclama-nos cautela, porquanto quase sempre deixa o corpo à mercê dos comunicantes, quando lhe compete o dever de ajudar-nos na contenção deles, a fim de que o nosso tentame de fraternidade não lhe traga prejuízo à organização física’”. (pág. 30).

Segundo pensamos se o médium “empresta o veículo a entidades”, é porque os espíritos tomam posse do corpo físico dele ou, no linguajar popular, incorpora-se no médium.

“… Entretanto, adaptando-se ao organismo da mulher amada que passou a obsidiar, nela encontrou novo instrumento de sensação, vendo por seus olhos, ouvindo por seus ouvidos, muitas vezes falando por sua boca e vitalizando-se com os alimentos comuns por ela utilizados. Nessa simbiose vivem ambos, há quase cinco anos sucessivos, contudo, agora, a moça subnutrida e perturbada acusa desequilíbrios orgânicos de vulto”. (pág. 54).

É praticamente o que diz Kardec ao final do item 47, na última passagem citada logo acima. A única divergência é que Kardec diz de posse momentânea, e aqui descreve uma com, provavelmente, cinco anos de duração.

“Notamos que Eugênia-alma afastou-se do corpo, mantendo-se junto dele, a distância de alguns centímetros, enquanto que, amparado pelos amigos que o assistiam, o visitante sentava-se rente, inclinado-se sobre o equipamento mediúnico ao qual se justapunha, à maneira de alguém a debruçar-se numa janela”. (págs. 54/55).

“… nesses trabalhos, o médium nunca se mantém a longa distância do corpo…” (pág. 56).

Impressionante como esse trecho se assemelha à fala do espírito que explicava como possuía o corpo físico da Senhora A…, na possessão citada pela Revista Espírita. E para quem assistiu ao filme Ghostessa descrição faz-nos lembrar do que acontecia com a personagem vivida por Whoopi Goldbrg, que antes brincava de “receber” espíritos, e depois passou a “recebê-los” de fato.

Vejam bem, tudo isso se ajusta ao que está dito em A Gênese, mas mesmo que no livro do autor espiritual André Luiz se relatem fatos extremamente idênticos, lemos nessa obra o seguinte:

“Achando-se a mente na base de todas as manifestações mediúnicas, quaisquer que sejam os característicos em que se expressem…” (pág. 18)

Isso vem justamente contradizer, salvo melhor juízo, o que está descrito nesse livro, quando dos casos de incorporação e dos de obsessão, uma vez que, por eles fica caracterizada a posse do corpo do médium ou do obsidiado, respectivamente. Assim, acreditamos que poderia estar havendo um certo exagero em se dizer de forma absoluta que a mente está na base de todas as manifestações mediúnicas, como se afirma no mencionado livro. A não ser que estejamos entendendo de maneira errada o que quer colocar o autor espiritual. Poderia, quem sabe, estar mesmo querendo dizer que essa base é a mente do desencarnado, não como sendo a ligação mental entre os envolvidos no fenômeno mediúnico.

Podemos ainda citar o Dr. Hermani Guimarães Andrade que utilizou quase das mesmas passagens que citamos de André Luis, quando estudo a questão das incorporações mediúnicas, obsessões e possessões. A certa altura diz-nos esse saudoso mestre:

A “incorporação mediúnica” pode, também, distinguir-se por diversas modalidades de comunicação: psicofonia, psicografia, possessão parcial ou total das manifestações de habilidades não aprendidas tais como nos casos de psicopctografia, psicocirurgia, psicoescultura,, psicomúsica, escrita automática incontrolável com xenografia, xenoglossia, múltipla personalidade, transfiguração (esta última pertencendo também ao capítulo das ectoplasmias), etc.

O mecanismo da “incorporação mediúnica” é fácil de compreender. Ela pode principiar pela aproximação da entidade que deseja comunicar-se. Esta poderá eventualmente influenciar o “médium”, facilitando-lhe o “transe”. O médium passa então a sofrer um desdobramento astral (OBE) e sua cúpula juntamente com o corpo astral deslocam-se parcial ou totalmente de maneira a permitir que a cúpula e o corpo astral do Espírito comunicante ocupe parcial ou totalmente o campo livre deixado pelo “corpo astral” do médium. A incorporação é tanto mais perfeita quanto maior o espaço é cedido pelo astral do médium ao afastar-se do seu corpo físico, deixando lugar para a cúpula com o corpo astral dôo comunicador. Este – o Espírito comunicante – deverá sofrer um processo semelhante ao desdobramento astral,, para permitir que sua cúpula e corpo astral possam justapor-se ao espaço livre deixado pelo médium (ver fig. 16).

Na figura 16 mostramos esquematicamente o mecanismo de uma incorporação mediúnica completa. Há casos em que a parte astral do médium se desloca só parcialmente, permitindo que apenas uma fração do astral do Espírito comunicador entre em contacto com a zona anímico-perispirítica daquele. Mesmo nestas condições pode haver comunicação, a qual poderá ser em parte direta e em parte telepática. Em semelhante circunstância há sempre possibilidade de controle das comunicações, por parte do mediu. Este poderá interferir no processo, ainda mesmo que totalmente afastado, pois a ligação com a sua zona anímico-perispirítica não cessa. Há sempre a presença do “cordão prateado” garantindo o domínio do próprio equipamento somático.

Podemos aceitar, sem medo de estarmos totalmente errados, que, em alguns casos, há mesmo o que, popularmente, já se diz de situações como essas, qual seja, a real incorporação, no sentido exato da palavra aplicado a esse fenômeno mediúnico, conclusão a que chegamos por esse estudo.

Julho/2004.

Referências Bibliográficas:

  • ANDRADE, H.G., Espírito, Perispírito e Alma, São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2002.
  • DENIS, L., No Invisível, Rio de Janeiro: FEB, 1987.
  • KARDEC, A. A Gênese, Araras – SP: IDE, 1993.
  • _________ O Livro dos Espíritos, Araras – SP; IDE: 1987.
  • _________ O Livro dos Médiuns, Araras – SP, IDE: 1993.
  • _________ Revista Espírita, tomo XI, 1868, Araras – SP: IDE, 1993.
  • _________ Revista Espírita, tomo XII, 18969, Araras – SP: IDE, 2001.
  • XAVIER, F. C. Nos Domínios da Mediunidade, Rio de Janeiro: FEB, 1987.
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