Sessões doutrinárias

A prática espírita não dispensa a constante orientação doutrinária dos que desejam realiza-la com eficácia e proveito. As sessões de estudo e debates são obrigatórias em todas as instituições. Aparentemente elas não são mediúnicas, mas na realidade o são, pois é fácil constatar-se que em todas elas os Espíritos orientadores estão presentes, auxiliando na orientação dos trabalhos, e às vezes até mesmo se manifestam para algum esclarecimento ou advertência. O estudo e os debates devem cingir-se às obras da codificação.

Substituir as obras fundamentais por outras, psicografadas ou não, é um inconveniente que se deve evitar. Seria o mesmo que, num curso de especialização em Pedagogia, passar-se a ler e discutir assuntos de Mecânica, a pretexto de variar os temas.

 

O aprendizado doutrinário requer unidade e sequencia, para que se possa alcançar uma visão global da Doutrina.
Todas as obras de Kardec devem constar desses trabalhos, desde os livros iniciáticos, passando pela Codificação propriamente dita, até os volumes da Revista Espírita. Precisamos nos convencer desta realidade que nem todos alcançam: Espiritismo é Kardec porque foi ele o estruturador da Doutrina, permanentemente assistido pelo Espírito da Verdade. Todos os demais livros espíritas, mediúnicos ou não, são subsidiários. Estudar, por exemplo, uma obra de Emmanuel ou André Luiz sem relacioná-la com as obras de Kardec, a pretexto de que esses autores espirituais superaram o Mestre (cujas obras ainda não conhecemos suficientemente) é demonstrar falta de compreensão do sentido e da natureza da Doutrina. Esses e outros autores respeitáveis dão sua contribuição para a nossa maior compreensão de Kardec. Não podem substitui-lo.

É bom lembrar a regra do consenso universal, segundo a qual nenhum Espírito ou criatura humana dispõem, sozinhos, por si mesmos, de recursos e conhecimentos param nos fazerem revelações pessoais. Esse tipo de revelações individuais pertence ao passado, aos tempos anteriores ao advento da Doutrina. Um novo ensinamento, a revelação de uma verdade nova depende das exigências doutrinárias de:

a) Concordância universal de manifestações a respeito;
b) Concordância da questão com os princípios básicos da Doutrina;
c) Concordância com os princípios racionais, lógicos e logísticos do nosso tempo.

Fora desse quadro de concordâncias necessárias, que constituem o consenso universal, nada pode ser aceito como válido. Opiniões pessoais, sejam de sábios terrenos ou do mundo espiritual, nada valem para a Doutrina. O mesmo ocorre nas Ciências e em todos os ramos do Conhecimento da Terra. Porque o Conhecimento é uma estrutura orgânica, derivada da estrutura exterior da realidade e nunca sujeita a caprichos individuais.

Por isso é temeridade aceitar-se e propagar-se princípios deste Espírito ou daquele homem como se fossem elementos doutrinários. Quem se arrisca a isso revela falta de senso e falta absoluta de critério lógico, além de falta de convicção doutrinária. O Espiritismo não é uma doutrina fechada ou estática, mas aberta ao futuro. Não obstante, essa abertura está necessariamente condicionada às regras de equilíbrio e de ordem que sustentam a validade e a eficácia da sua estrutura doutrinária.

Como a Química, a Física, a Biologia e as demais Ciências, o Espiritismo não é imutável, está sujeita às mudanças que devem ocorrer com o avanço do conhecimento espírita. Mas como em todas as Ciências, esse avanço está naturalmente subordinado às exigências do critério racional, da comprovação objetiva por métodos científicos e do respeito ao que podemos chamar de natureza da doutrina. Introduzir na doutrina práticas provenientes de correntes espiritualistas anteriores a ela seria o mesmo que introduzir na Química as superadas práticas da Alquimia.

As Ciências são organismos conceptuais da cultura humana, caracterizados pela sua estrutura própria e pelas leis naturais do seu crescimento, como ocorre com os organismos biológicos. Todos nós ainda trazemos a herança empírica do passado, anterior ao desenvolvimento da cultura científica, e somos às vezes tentados a realizar façanhas cientificas para as quais não estamos aptos. E como todos somos naturalmente vaidosos, facilmente nos entusiasmamos com a suposta possibilidade de nos tornarmos renovadores doutrinários. Nascem daí as mistificações como a de Roustaing, tristemente ridículas, a que muitas pessoas se apegam emocionalmente, o que as torna fantásticas e mesmo pessoas cultas, respeitáveis, deixam-se levar por essas mistificações, por falta de humildade intelectual e de critério científico.

Espíritos opiniáticos ou sectários de religiões obscurantistas aproveitam-se disso para introduzir essas mistificações em organizações doutrinárias prestigiosas, com a finalidade de ridicularizar o Espiritismo e afastar dele as pessoas sensatas que sabem subordinar a emoção à razão e que muito poderiam contribuir para o verdadeiro desenvolvimento da doutrina.

Por tudo isso, as manifestações mediúnicas em sessões doutrinárias devem ser recebidas sempre com Espírito crítico. Aceitá-las como verdade revelada é abrir as portas à mistificação, à destruição da própria finalidade dessas sessões. Também por isso, o dirigente dessas sessões deve ser uma pessoa de espírito arejado, racional, objetivo, capaz de conduzir os trabalhos com segurança.

Kardec é sempre a pedra de toque para a verificação das supostas revelações que ocorrem. O pensamento espírita é sempre racional, avesso ao misticismo. Os Espíritos comunicantes, em geral, são de nível cultural mais ou menos semelhante ao das pessoas presentes. Não devem ser encarados como seres sobrenaturais, pois não passa de criaturas humanas desencarnadas, na maioria apegada aos seus preconceitos terrenos, a morte não promove ninguém a sábio, nem confere aos Espíritos autoridade alguma em matéria de doutrina. Por outro lado, os Espíritos realmente superiores só se manifestam dentro das condições culturais do grupo, não tendo nenhum interesse em destacar-se como geniais antecipadores de descobertas científicas que cabe aos encarnados e não a eles fazerem.

A ideia do sobrenatural, nas relações mediúnicas, e a fonte principal das mistificações. Homens e Espíritos vaidosos se conjugam nas tentativas pretenciosas de superação doutrinária. Se não temos ainda, no mundo inteiro, instituições espíritas à altura da doutrina, isso se deve principalmente à vaidade e à invigilância dos homens e Espíritos que se julgam mais do que são. Nesta hora de muitas novidades, é bom verificarmos que as maiores delas já foram antecipadas pelo Espiritismo. É ele, o Espiritismo, a maior novidade dos novos tempos. Se tomarmos consciência disso, evitaremos os absurdos que hoje infestam o meio doutrinário e facilitaremos o desenvolvimento real da doutrina em bases racionais.

Escrito por José Herculano Pires no livro “O ESPIRITO E O TEMPO”

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