A PSEUDO-PUREZA DOUTRINÁRIA NO ESPIRITISMO

Todo excesso é prejudicial ao pleno desenvolvimento de algo. Seja uma ideia, um projeto, uma instituição.

O grande amigo Allan Kardec fez, inquestionavelmente, um exímio trabalho de codificação, ao compilar as ideias-matriz da Doutrina Espírita, que se apresenta em tríplice aspecto, ou seja: como religião, ciência e filosofia.

No entanto, Kardec não disse tudo. Nem poderia dizer. E isso, por três razões: a uma, porque ele não teve todo o tempo necessário; a duas, porque a humanidade, naquela época, ainda não estava pronta para ouvir tudo, como de fato, ainda não está e, a três, porque nenhum trabalho de codificação se finda perfeito, pois o conhecimento evolui e, quando a codificação está pronta, o conhecimento muito já evoluiu.

Ademais, tendo “em conta a natureza específica de uma codificação que não pode abranger as contínuas inovações sociais[1] é evidente que a codificação kardequiana não poderia se apresentar perfeita e acabada.

Codificar algo é reunir de forma sistematizada e organizada o conhecimento disponível, ou seja, aquele que já é conhecido. No entanto, consoante já ressaltado, o conhecimento se amplia, evolui. Aliás, como tudo que surge e se desenvolve no mundo histórico.

Assim, no momento em que se finda uma codificação, o conhecimento que foi compilado e discutido para compô-la já se encontra ampliado, evoluído. Logo, a codificação nunca conseguirá seguir emparelhada com o conhecimento, pois este sempre estará um passo à frente.

Diante disso, causa estranheza alguns estudiosos do Espiritismo exigirem que, nos Centros Espíritas, todos os fenômenos aconteçam nas estreitas fronteiras da Codificação Kardequiana.

Um exemplo disso é o preconceito que grassa nos Centros Espíritas, sob o pálio da suposta pureza doutrinária, relativamente à maneira dos espíritos se manifestarem, como os Preto-Velhos. Muitos estudiosos e frequentadores dos Centros Espíritas, até mesmo em posições de dirigentes ou diretores doutrinários, não admitem que estes nossos queridos e amados irmãos se manifestem com seus peculiares trejeitos, como estalando os dedos, por exemplo. Ou ainda, barram e censuram a forma com que nossos amigos indígenas se manifestam, com suas rezas e rituais.

Negar ao Espírito comunicante sua peculiar maneira de ser e se manifestar é negar-lhe a própria personalidade. Por essa razão, inúmeros trabalhos, como de reuniões de desobsessão, por exemplo, terminam infrutíferas e de forma não profícua.

Estes nossos irmãos, se fossem respeitados em sua individualidade e personalidade, muito teriam a nos ensinar com suas valiosas experiências. Nem é preciso dizer que inúmeros trabalhos de magia são desfeitos por esses nossos irmãos (índios, caboclos, pretos-velhos), forjados pela dor e pelo sofrimento e que, por essa razão, têm uma proteção especial que lhes facilita a lida com essas práticas.

A pretensão de alguns Centros Espíritas de instruir seus médiuns a darem passividade apenas a entidades de alta evolução é um equívoco. Primeiro, porque muitas entidades espirituais que se apresentam como índios, caboclos e preto-velhos são de altíssima evolução e se apresentam nestas condições para testar a humildade dos encarnados, bem como, por ser, muitas vezes, a condição de vida terrena que mais lhes ensinou os valores do espírito. Por essa razão, preferem manter a imagem que lhes traga viva na consciência as marcas das lições que os fez atingir a verdadeira evolução espiritual. Veja, caro leitor, o tamanho de nossa ignorância.

Ademais, exigir manifestações apenas de seres de elevada grandeza consciencial é demonstrar orgulho, vaidade e falta de caridade. Além disso, quem garante que sejamos merecedores de tais comunicações, demonstrando este alto grau de mediocridade e orgulho?

Talvez não tarde o dia em que os médiuns apenas aceitem dar comunicação a Jesus!

Há notícias de Centros Espíritas que estão barrando a comunicação de irmãos desencarnados enfermos e em sofrimento. Pasmem o absurdo!

Qual a finalidade do Centro Espírita? Não seria fazer a caridade, por meio do atendimento dos aflitos, dos desesperançados, dos doentes, dos aflitos? Jesus veio ao mundo pelos sãos, pelos honestos, ou, ao contrário, pelos aflitos, pelos doentes do corpo e do espírito e os estropiados (Marcos 2:17)?

Por esses comportamentos os Centros Espíritas estão sendo condenados a redutos de auto-idolatria e perversão doutrinária.

As cinco obras da Codificação Kardequiana são o alicerce, os fundamentos e não a obra acabada. Depois de feito o alicerce, sobre os mesmos pode ser erigida qualquer forma arquitetônica que se queira. Quanto mais firmes e profundas as bases, maior poderá ser a construção.

É o que ocorre na Doutrina Espírita. Allan Kardec, através dos Espíritos, nos legou os alicerces. E alicerces muito fortes e profundos, todavia, nos outorgou a responsabilidade de construir os Edifícios da Espiritualidade Humana. Se os alicerces são bons, tem-se o terreno propício para se construir uma forte edificação.

Entretanto, de nada adianta uma fundação forte e bem feita se a mediocridade do construtor não a utiliza com sabedoria. Seria o mesmo que erigir tosca cabana em alicerces vigorosos de aço. Temos estes vigorosos alicerces de aço que são as obras básicas da Codificação, portanto, não permitamos de nossas medíocres limitações e nossa preguiça mental nos impeça de construir nosso futuro, por meio da busca da ampliação de nossa consciência e do aperfeiçoamento de nossa conduta moral. Entendo que foi para isso que Deus permitiu a revelação da Doutrina Espírita em sua tríplice fundamentação.

 

Rodrigo Mendes Delgado

Advogado; Consultor Jurídico do Escritório Macedo e Delgado Advocacia; Especialista em Ciências Criminais pela UNAMA/LFG; Escritor; Palestrante; Autor das obras “O Valor do Dano Moral – como chegar até ele”, 3.ed., Leme: Editora JH Mizuno, 2011 e “Lei de Drogas Comentada artigo por artigo – Tráfico e Porte”, 2.ed., Leme: Editora Cronus, 2012; Consultor Empresarial da Telos Consultoria e Treinamentos; Coach certificado pela Sociedade Brasileira de Coaching (SBCoaching).

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4 respostas para A PSEUDO-PUREZA DOUTRINÁRIA NO ESPIRITISMO

  1. Elerson Gaetti disse:

    Texto primoroso. A dura realidade de alguns espíritas: em defesa de Kardec, que não precisa de defensores (mas apenas de colaboradores modernos com senso crítico e boa vontade), os mais limitados intelectualmente criam barreiras para impedir a livre discussão de ideias e manifestações mediúnicas. Parabéns pelas colocações, pena que o público mais ortodoxo não se dá ao trabalho de ler esse tipo de discussão.

  2. Emanuelle P.L. Figaro disse:

    PERFEITO!!! PARABÉNS DR. RODRIGO.

  3. Braulio Alves disse:

    Concordo com o texto. Mas até onde entendi em meus estudos, não encontrei referência em Allan Kardec a esse tipo de prática “elitista” em termos espirituais. Lendo também J. Herculano Pires, que foi um dos maiores defensores da pureza doutrinária, em seu livro “Curso Dinâmico de Espiritismo”, este também critica essas mesmas práticas.

    Acho que a Codificação não está acabada, mas creio que a construção de “novos” conhecimentos deva se dar respeitando-se os princípios básicos da doutrina e não os contrariando!

  4. Domingos Cirillo disse:

    O que se completa não se contradiz, o que se ve na literatura espiritualista de Chico Xavier pelo espirito de Emmanuel e André Luiz e Carlos Bacelli, não tem nenhum complemento e sim contradições e Kardec foi o primeiro a pedir zelo e não deixar que coisas estranhas a doutrina venham a alterar a mesma, o Dr. acaso já leu as mensagens de Erasto na codificação? então leia e vera que ainda estamos muito longe de querer mudar algo que ainda nem entendemos direito.
    Abraços ao confrade.

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