A MUDANÇA NA PIRÂMIDE ETÁRIA BRASILEIRA: DESAFIOS PARA O SÉCULO XXI.

Quando conversamos com nossos filhos e alunos sobre a realidade de nossa juventude, sentimos que um verdadeiro abismo se abre diante de nossos olhos.

Como falar para eles que refrigerante só no domingo? … na cerimônia do macarrão da mama ou da nona. Como descrever que para cada 10 habitantes tínhamos um carro? Ou que 40% da população brasileira eram considerados analfabetos em 1960-1970? Esses aspectos sofreram pronunciadas modificações nos últimos 40-50 anos.

A sociedade brasileira sofreu mudanças profundas e num ritmo que não foi igualado por nenhum outro país do mundo. Em 1970, o número de filhos por mulher era de, aproximadamente, 5 (cinco!!!!), caindo para menos de 2 no presente. A expectativa de vida aumentou substancialmente, bem como a população com mais de 60 anos.

Na década de 1970, a prioridade era colocar criança na escola e oferecer os serviços básicos para a população, 40-50 anos depois essa realidade ainda persiste em muitos rincões do país e uma educação de péssima qualidade pode ser sentida por todos os lados. Contudo, em uma terra que se comprazia em ser chamada de “país do futuro” ou “país de jovens”, o Brasil tem que encarar os novos desafios de uma população que cresce menos, pelos menos numericamente, e envelhece aceleradamente. Um novo perfil populacional impõe novos desafios.

A pirâmide etária do nosso país muito se assemelhava às pirâmides demográficas das nações mais subdesenvolvidas, nos anos 70, com uma base ampla, mantida por uma natalidade explosiva, e afunilando-se rapidamente, em função da modesta expectativa de vida da população. Com a diminuição pronunciada da natalidade e o aumento da expectativa de vida, observou-se a verticalização da pirâmide demográfica, que ficou mais homogênea, com uma base menos larga e um aumento da porção média de mesma (http://pt.wikipedia.org/wiki/Popula%C3%A7%C3%A3o_brasileira#Idioma), onde está concentrada a população economicamente ativa, que hoje representa a maior parcela de nossa população. É um momento ímpar para a vida nacional que, segundo grande parte dos economistas e demógrafos, representa o momento mais propício para que uma sociedade decole economicamente e elimine os gargalos que a separavam de sociedades mais justas e desenvolvidas.

Com um menor número de filhos por mulher, o estado passa a ter mais recursos para investir em uma educação de melhor qualidade e outros serviços para a população, mas o maior problema no Brasil nunca foi o expressivo número de crianças, mas o uso inadequado dos recursos existentes e sobre isso apenas a conscientização da população e da classe dirigente poderão ter algum efeito. Colocar que os problemas estruturais desse país eram criados por falta de planejamento familiar é de uma falta de bom senso que não merece comentários. A mulher mudou a cara da sociedade a partir dos anos 1970: trabalhando fora de casa, adquirindo educação formal e capacitação, passou a gerir sua vida e suas famílias, tendo a oportunidade sublime de planejar suas experiências e destinos. O melhor remédio para a explosão populacional sempre foi a educação para as nossas queridas.

A perspectiva de uma crise malthusiana de falta de alimentos e oportunidades é algo que não mais pode ser encarada com seriedade. O número de crianças por mulher é tão pequeno ao redor no mundo com algum desenvolvimento que o crescimento populacional que hoje encaramos se dá apenas pelo aumento da expectativa de vida dessa população. Porém, a partir de 2050, com a população idosa brasileira se aproximando de 25% do total, teremos o início de um ciclo de redução populacional, que deverá atingir um pico de 250 milhões de habitantes e deverá cair lentamente, um fenômeno muito semelhante ao que hoje a Europa e o Japão já presenciam.

Os desafios que esse processo impõe são grandes e temos que compatibilizá-los com a solução dos problemas que a exclusão social ainda cria em nossa pátria amada. Se por um lado a população idosa sobrecarrega o sistema de saúde de grandes cidades no país, por outro temos muitas crianças sem acesso à educação de qualidade ou vivendo em regiões de extrema pobreza, sem perspectivas de mudança de vida. O Brasil muito conseguiu no sentido de eliminar a miséria, mas foi absolutamente incapaz de trazer a riqueza que essas comunidades esperavam. Muitas são as razões para isso, destacando-se a precária formação da população economicamente ativa, o que implica em modesta produtividade no trabalho, limitando, diretamente, a renda da massa assalariada. Sem educação, uma população que cresce pouco mais de 1,0% ao ano não pode esperar um crescimento muito superior a isso em seu produto interno bruto.

Produtividade necessita de conhecimento e isso demanda educação; não a eliminação simples do analfabetismo por decreto presidencial ou educação continuada para efeitos de estatística, ou cursos sem possibilidade de aplicação prática, mas requer sim a capacitação profissional para um milênio com inúmeras oportunidades e caracterizado pela dissolução das fronteiras tradicionais e a criação de outras, mais subjetivas e sutis, as barreiras de conhecimento. No presente devemos fazer o que não fizemos no passado: educar e evitar o caos décadas depois. Oportunidades devem ser criadas para que não tenhamos de perpetuar os auxílios paternalistas de todos os tipos. Os mais excluídos querem apenas oportunidades.

O envelhecimento da população acabará produzindo uma sobrecarga no sistema previdenciário nacional, que também padece de um gerenciamento precário.  Se na década de 1970 tínhamos muito mais contribuintes do que “sacadores” do sistema, essa relação se inverterá nas próximas décadas e abre uma questão nada desprezível: quem pagará nossa aposentadoria? Alguém terá de fazê-lo, uma vez que os recursos que todos recolhem, no país, vão para um fundo e não para uma conta individualizada. Com menor base de arrecadação e despesas cada vez maiores, a Previdência Social irá encarar grandes desafios, hoje minimizados por um crescimento econômico de modesto a moderado e pelo Tesouro Nacional. O aumento da expectativa de vida irá impor a necessidade de aumento do tempo de contribuição do trabalhador, para o sistema previdenciário, como temos observado em países como França, Espanha e Grécia, severamente atingidos pela crise econômica.

A saúde também sofrerá uma modificação profunda e uma transição de uma sociedade em que crianças ainda morrem de infecções intestinais para uma sociedade envelhecida onde as doenças crônicas serão mais dominantes. Nesse sentido, tivemos um grande aumento da expectativa de vida, mas o desafio é aumentar o período de vida saudável no indivíduo, uma vez que, no presente, os anos a mais conquistados são ocupados por doenças de todos os tipos, produzindo uma geração longeva, mas com baixa qualidade de vida. Queremos viver mais e melhor. Isso sem adicionais conotações metafísicas ou espiritualistas, que não são objetivo dessas linhas.

O perfil das doenças que mais atingem os brasileiros, com o envelhecimento da população e a melhora das condições de saneamento básico, também sofrerão modificações profundas, com a redução da ocorrência e severidade das enfermidades de cunho infeccioso e o aumento das doenças cardiovasculares, musculoesqueléticas, neoplásicas e outras. Essas alterações serão fundamentais para o novo modelo de saúde que deverá emergir: as doenças que se tornarão mais frequentes também são de natureza e evolução crônicas, demandando recursos muito mais significativos para seu controle.

Como agravante, teremos de modificar hábitos e posturas. As doenças que mais preocupam os especialistas nesse começo de século XXI implicam em alterações profundas de comportamento, como a prática de atividades físicas e alimentação mais saudável, e da própria estrutura das cidades. Além dessas modificações, uma população com crescimento baixo ou mesmo negativo terá de encarar de forma diferente a questão da aposentadoria. O ditado “aposentou, morreu” denota que parcela significativa da população não se preparou para o momento da aposentadoria, que é inevitável.

Essa questão é de relevância ainda maior para os funcionários de carreira, que trabalham na mesma empresa por 20, 30, 40 ou mais anos. A vida profissional acaba sendo encarada como o cerne de sua existência e o indivíduo não se prepara psicologicamente para o momento da aposentaria, levando ao desenvolvimento de quadros depressivos e crises familiares. A solução para isso é o planejamento.

O que fazer? Quando? Como? Essas perguntas de cunho pessoal precisam ser formuladas e suas respostas podem vir a contar com a orientação de profissionais especializados, em serviços voltados para o trabalhador, tanto nas empresas privadas, quanto no serviço público. Ter metas e objetivos para o tempo a ser conquistado com a aposentadoria deve constituir uma prioridade. Tudo isso ajuda.

Alguns países já se deram conta que as limitações impostas pelo envelhecimento não interferem de forma homogênea com as capacidades humanas, de forma que muitos aposentados retornam ao mercado de trabalho, em atividades que possam ser executadas sem sobrecarga. Isso também produzirá uma valorização desse segmento da população. A idade para a aposentadoria compulsória no serviço público deverá ser modificada. Nesse sentido, quem não ficou chocado ao ver ministros do Supremo Tribunal Federal, no apogeu de seu conhecimento e portadores de grande lucidez de raciocínio, se retirando do trabalho ativo, obrigados por diretivas que foram imaginadas quando as expectativas de vida eram significativamente menores?

Esse Brasil mais maduro terá oportunidades de ouro, ao lado de grandes desafios. Terá de aprender a associar a capacidade de inovar e buscar novas soluções, com a experiência de quem construiu o país. Saúde também é inserção social e não podemos prescindir do conhecimento e da disciplina que esses brasileiros sexagenários ou septuagenários são portadores, dando equilíbrio à nau “Brasil”.

A vida é muito mais do que simples conjunto de reações metabólicas e valorizá-la, em todos os seus aspectos, é dar a real importância à convivência em sociedade, respeitando as peculiaridades de cada um. Precisamos planejar o país que queremos no futuro, posto que o ditado popular que diz “o mundo é o que dele fazemos” está carregado de razão. Temos muito para pensar a respeito.

Autor: Elerson Gaetti Jardim Júnior

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2 respostas para A MUDANÇA NA PIRÂMIDE ETÁRIA BRASILEIRA: DESAFIOS PARA O SÉCULO XXI.

  1. Renato Fajardo disse:

    UAU

  2. yohanna disse:

    Eu acho que o País já sofre muito com tudo o que está acontecendo. É td diferente de algumas décadas, onde nossos filhos iam prá escola com sete anos, onde mãe não trabalhava fora, mas era sim só mãe, dona de casa e esposa, onde maridos respeitavam suas mulheres e onde as mulheres tinham mais pudores ao se vestirem, ao namorarem existiam mais respeito….bom enfim, tudo mudou….mudou muito, mas eu me pergunto…..até onde essa mudança foi prá melhor?…..Eu tenho dúvidas em muitos aspectos.

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