Obsessão ou Livre Arbítrio?

Warwick Mota

Tem se tornado prática entre nós espíritas, atribuirmos toda e qualquer ação de outrem, a Espíritos desencarnados, principalmente, as de caráter negativo que nos levam a emitir considerações ou mesmo à expressão direta de opinião acerca do assunto. Eu diria até, que estamos nos assemelhando em muito, a irmãos de outras crenças, que atribuem tudo que é negativo ao “demônio”.

Talvez pelo fato de acharmos mais cômodo, buscar respostas fáceis ou delegar culpas que ao primeiro deslize do próximo, já estabelecemos um paradigma em relação ao comportamento alheio, estigmatizando qualquer comportamento diferente em comportamento obsessivo ou desequilibrado.

Para tal nada melhor que o uso de frases tão bem conhecidas no vocabulário espírita, que inconseqüentemente popularizamos o uso, sem atentar para coerentes critérios de observação.

“Fulano? Está obsidiado, você não percebeu o comportamento dele?” Ou então: “eu tenho tanta pena do nosso irmão, ele está totalmente desequilibrado”. E mais ainda: “beltrano precisa passar por um processo de desobsessão urgente! Isso é coisa de espírito obsessor!”

Todos nós sabemos, conhecemos, vivemos ou já vivenciamos, dramas obsessivos, seja com nós próprios, com parentes, amigos, vizinhos etc, sem contar que dispomos na literatura espírita, de vasto material a nos dar o suporte necessário para o estudo e a pesquisa séria, acerca da problemática obsessiva, orientando-nos quanto as suas minúcias, graus, processos e áreas visadas.

A obsessão tem se constituído ao longo dos séculos como um dos maiores males que assola a humanidade, mas não é em função disso que devemos considerar qualquer ação praticada, como obsessão a rigor, se assim fosse, não haveria mérito para aqueles que conseguem realizar a reforma íntima, bastaria o simples fato de afastar o obsessor, para que o individuo lograsse imediatamente a condição de homem novo, pois as imperfeições não seriam inerentes a ele, mas sim ao Espírito que o obsidiava.

Se partirmos da premissa o fato de algumas pessoas, ao levantarem querelas, ou terem um comportamento antiespírita dentro das instituições a que pertencem, ou mesmo no meio social em que convivem, ressaltando-se, que via de regra temos por hábito acusar principalmente os espíritas, quando esses fazem parte do contexto, rotulando-os é claro, de obsidiados ou desequilibrados. Obviamente estamos sendo parciais em nossa observação, ao atribuir toda culpa nesse processo aos Espíritos desencarnados, eximindo logicamente tais pessoas de quaisquer vícios ou defeitos. Tal afirmativa não condiz com a verdade, portanto essa premissa é falsa. As imperfeições como já foi dito, são inerentes ao ser humano e que, os desencarnados fazem uso delas, amplificando-as para seus fins.

A alegação de que essas pessoas são conhecedoras do postulados de Kardec, é bastante inconsistente, só conhecer Kardec não é o suficiente, faz-se necessário entender Kardec. É em virtude da falta de entendimento que surge no movimento espírita pessoas descomprometidas com a Doutrina, dando suas interpretações pessoais a esta. Certamente a conseqüência desse comportamento é a exteriorização de vícios como o personalismo, apego aos poderes temporais, presunção de conhecimentos profundos da Doutrina, o que nos leva a concluir que tais indivíduos estariam mais propensos à prática da filantropia do que à caridade propriamente dita.

Quando nos referirmos à caridade, busquemos ampliar nosso entendimento em relação ao termo. Será que estamos sendo caridosos para como os desencarnados atribuindo-lhes todas as culpas? Ou será que estamos suprimindo, dos encarnados o poder de livre arbítrio que estes têm e que por estarem instalados na matéria as factíveis de erros? O Espírito é herdeiro de suas próprias conquistas e transferir todas nossas derrocadas a outros é fugir à responsabilidade do automelhoramento.

(Publicado na revista “O Espírita” nº 89 Jul/Set 95 – Brasília – DF e reproduzido do site do autor com sua autorização)

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