Problemas do Exercício da Mediunidade

Alamar Régis Carvalho

A mediunidade, conforme os espíritas já sabem, não é uma “coisa” inventada pelo Espiritismo, muito menos propriedade espírita. Ela é uma faculdade humana, presente com menor ou maior intensidade em cada pessoa, com mais intensidade em algumas e noutras de forma bem imperceptível.

É por isto que a nossa obra básica afirma que todos somos “mais ou menos médiuns”.

Mas ninguém estuda mais essa “coisa” do que o Espiritismo. Temos um livro voltado a tratar do assunto em nossa obra básica, que é “O Livro dos Médiuns”, além de vários outros livros que fazem parte desta imensa biblioteca disponível aos espíritas, umas psicografadas e outras escritas pela cabeça e a experiência de encarnados mesmo.

Por que o autor desta matéria fala em problemas do exercício da mediunidade?

Porque de fato a prática mediúnica enfrenta problemas demais, os homens não se beneficiam dos ensinamentos, alertas e instruções que lhes poderiam ser passados, através da mediunidade, inclusive muitos desencarnados não conseguem vir ao centro espírita obter esclarecimentos sobre a sua condição, tudo isto por causa dos problemas causados por nós mesmos, espíritas.


Vejamos só quanta dificuldade.

A primeira delas remonta a uma das recomendações contidas nas próprias obras básicas, que diz: “É preferível recusarmos nove verdades a aceitarmos uma mentira”.

Este é um ensinamento verdadeiro, doutrinariamente falando, e não se constitui naquilo que eu chamo de “coisa da cabeça de determinados dirigentes que querem fazer espiritismo à sua moda”.

Acontece que este ensinamento, que é enquadrado mais como um alerta, foi colocado na obra com um objetivo, mas os espíritas, em “exageramento” de dosagem, terminam utilizando-o para restringir ao máximo o exercício da mediunidade, o que constrange por demais os médiuns, até mesmo os sérios, quanto a sua prática.

Há outro problema: Ensinam-nos que o Espiritismo passará por várias fases: A primeira seria a da curiosidade, onde o fenômeno será a principal atração, quando esse fenômeno é o nome que dão à prática da mediunidade; depois viria uma fase onde o estudo seria o mais importante até atingirmos uma outra fase que seria a da reforma íntima, com base nos princípios espíritas.

Pois bem. Por causa disto, grande parte da liderança espírita acha que já passamos da tal “fase do fenômeno” e, em decorrência disto, restringem veementemente a prática da mediunidade e hoje encontramos aí muitos centros espíritas sem qualquer atividade mediúnica e outros, quando têm, restringem-se a uma meia dúzia de pessoas, uma vez só por semana, como sempre com aquelas caras fechadas, (dizem que é “seriedade”), parecendo que tá todo mundo em um velório à moda antiga, porque nos dias atuais nem nos velórios encontramos tanta sisudez.

O outro grande problema que encontramos é um que, ao meu ver, representa o maior obstáculo: o problema da tal “humirdade”, que é a humildade equivocada.

Tem vários exemplos disto:

Em um determinado centro espírita, lá numa cidade bem pequenininha, interiorana do Ceará, da Bahia, Maranhão, Goiás… com poucos trabalhadores, tem a reunião mediúnica dirigida pelo seu Otacílio, com as médiuns Dona Zezé, Dona Maria e o Walter. Tem mais cinco pessoas, a Sofia, o Orlando e a Cotinha, que são doutrinadores e mais a dona Rosa e o Tatá que ficam fazendo preces e vibrando.

A Dona Zezé e o Walter só recebem espíritos sofredores, a Dona Maria recebe o mentor da casa e outros espíritos que “dão conselhos”.

Ai da Dona Maria se atrever-se a abrir a boca, ou pelo menos insinuar, que vai dar passagem ao Dr. Bezerra, a Joanna de Angelis ou a um desses outros espíritos “medalhões” do movimento espírita!!!!

Estará frita na língua da turma.

Eu já disse, em um outro artigo, que, em conversa com um desses espíritos de “primeira linha”, foi-lhe feita a seguinte pergunta:

– “Fulana, por que espíritos como o Lèon Denis, Gabriel Dellane, Flamarion, Lombroso, Amélie Boudet, Emmanuel, Humberto de Campos, Dr. Bezerra, você mesma e outros desses mais famosos no movimento espírita, não dão comunicações através de médiuns de centros espíritas modestos, pequenos, das cidades menos expressivas, lá pelos interiores dos Estados?”.

Respondeu o espírito:

– “Porque os espíritas não deixam. Criou-se uma concepção que eu, por exemplo, tenho contrato de exclusividade com o médium XXXX, que só comunico-me através dele, ninguém mais além dele. É fato que tenho uma grande simpatia por ele, os nossos laços afetivos não se restringem a esta vivência, vêm de muitos séculos, mas eu gostaria muito de poder contribuir mais com a minha singela experiência no maior número possível de centros espíritas.”

De fato é assim mesmo.

Imagine no centro espírita onde você trabalha, de repente aparece a Dona Maria, mulher pobre, esposa de Donga, motorista de caminhão, dizendo que vai dar “passagem” ao Dr. Bezerra, à Joanna, ao André Luiz… você já imaginou?

O dirigente vai logo convidá-la à vigilância e a prece, interrompendo qualquer concentração. A danada da humildade mal interpretada é um problema.

Por que não deixam o espírito se comunicar?

Se é recomendado que a autenticidade de uma mensagem mediúnica se mede pelo conteúdo, por que não deixam a comunicação acontecer, para depois analisar o que veio?

Se o conteúdo é mesmo André Luiz, Emmanuel, Joanna, Barsanulfo, Denis, Flamarion, Juscelino Kubistcheck ou seja lá quem for, conforme se apresentar o espírito, e tratar-se de uma mensagem edificante, tudo bem, mas se não for… pelo amor de Deus, não precisa sacrificar o médium e muito menos mandar para a fogueira da inquisição!!!!!!!!

Tem também o aspecto do: “Os espíritos verdadeiramente evoluídos não tem necessidades de se identificarem”.

Já ouvi isto, sei disto e todo espírita que estuda também sabe. Todavia, em nome da segurança doutrinária, perguntemos:

Isto é uma ordem? É uma lei imutável? É uma determinação Divina?

Se estou participando de uma reunião mediúnica, num ambiente onde todas as pessoas são espíritas autênticas, doutrinariamente seguras e conscientes, um espírito se vê diante de uma necessidade de nos trazer uma comunicação e identificar-se por razões que tem a ver com o contexto do assunto comunicado, não vai poder?

Se for um espírito desses que foram ilustres e celebridades na Terra, eu, o médium ou a direção da casa vamos ficar vaidosos e todos “metidos a besta”, só porque o nosso centro foi visitado por ele?

Creio que está na hora de nós espíritas repensarmos esta questão.

Todos sabemos que, de fato, existem espiriteiros por aí que adoram dizer que recebem espíritos de celebridades da Terra: Elis Regina, Juscelino, Ayrton Senna, Clara Nunes, Getúlio Vargas, Mário Covas… só nomes famosos. Só que, por causa desses exageros, generaliza-se tudo e ninguém pode ao menos afirmar que, pela vidência, está registrando a presença de um famoso na casa. Ainda mais receber uma mensagem de um desses. É ou não é um exagero?

Tem outro detalhe, também, que causa um problemão para a mediunidade:

Você sabia que em nosso movimento espírita, têm espíritas, considerados de primeira linha, que se acham com autoridade de dizerem que o próprio Divaldo Franco não é médium?

Por incrível que pareça, isto existe. Tem um que eu conheço muito bem, famoso em todo o Brasil, depois de uma participação em meu programa de televisão, com livros escritos e tudo, que afirma isto.

Agora vejam bem:

Se o Divaldo não for médium, com certeza ele só pode ser um gênio, de uma inteligência extraordinária, já que para escrever aquela quantidade de livros, com todo aquele conteúdo, em variados estilos, obras admiradas e respeitadas por milhares de pessoas, vendidos aos milhões pelo Brasil e por vários países, já que muitos foram traduzidos para vários idiomas, só pode ser uma expressão de genialidade do mais alto grau.

Se dizem isto do Divaldo, imaginem o que não dizem da Dona Maria, do Walter e da dona Zezé, que não têm a fama que ele tem.

Creio que você sabe que existe o universo de “espíritas”, dos tipos “chiquistas” (apaixonados por Chico Xavier), “divaldistas” (apaixonados pelo Divaldo), “medradistas” (apaixonados pelo Medrado) e outros “istas”. Mas deixe-me falar sobre os três primeiros.

Alguns “chiquistas roxos” não gostam do Divaldo e chegam a dizer que ele não é médium, que as mensagens do Dr. Bezerra, recebidas por ele, não são autênticas e que só as recebidas pelo Chico são; do mesmo jeito acontecem com alguns “divaldistas roxos” que dizem que as mensagens do Dr. Bezerra recebidas pelo Medrado não são autênticas e que só as do Di  são… e por aí vai.

Tem um cidadão, muito conhecido no movimento espírita brasileiro, que diz que somente ele recebe músicas mediúnicas de nomes famosos da MPB, tipo Ataulfo, Pixinguinha, Noel etc. Todos os outros são considerados, por ele, com fraudadores.

Baixam o cacete no Carlos Bacelli (no momento, ele é a bola da vez), no Ariston, no Celso, no Frederico Menezes, no Robson Pinheiro, na Marilusa… Afinal de contas, você conhece algum médium, no respeitável movimento espírita, que é aceito por todos os espíritas? Conhece algum que não entra no malho?

A Dona Yvone do Amaral Pereira também sofreu muito na língua dos espíritas; Peixotinho, Ranieri, Jerônimo Mendonça, Waldo Vieira, Zilda Gama, Dona Zíbia, nos dias atuais… enfim, não conheço um, sequer, que não tenha recebido pedradas.

Se nenhum médium presta, então a mediunidade não é verdadeira; se nenhuma mediunidade é verdadeira, que sentido tem então o Espiritismo, que foi trazido ao mundo através da mediunidade?

Será que somente a Ermance Dufaux e as irmãs Baudin foram médiuns?

Será que apenas nas residências de Madame Plenameison, do Senhor Fortier e nos centros dirigidos pelos espíritas críticos aconteceram e acontecem reuniões mediúnicas sérias?

Há muito patrulhamento em cima da mediunidade, há muita perseguição e muita pressão em cima dela. Querem dizer que isto ocorre em nome da “prudência”, mas não é não. O Torquemada também dizia que as torturas e os assassinados da inquisição aconteciam em nome da pureza doutrinária da igreja.

Temos que zelar, sim, pela coerência da nossa doutrina; temos que ter cuidado, sim, em analisar com critério, responsabilidade, bom senso e seriedade todas as manifestações mediúnicas; mas descartar o trabalho dos outros, questionar a mediunidade de uma pessoa, sem a indispensável disponibilidade para análises profundas, por “falta de tempo”, má vontade ou ânimo, é no mínimo uma irresponsabilidade para com a doutrina Espírita.

E continuemos a praticar o Espiritismo sem os Espíritos, que veremos qual será o destino dele. Leon Denis já nos alertou muito bem acerca do seu futuro. Ele sabia muito bem porque estava dizendo aquilo.

Para apreciação de todos, ou seja, dos que têm bom senso.

Artigo recebido do autor com a sua autorização de reproduzí-lo
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