Expiações terrestres História de um criado

(O Céu e o Inferno, segunda parte – Exemplos – cap. VIII – Expiações terrestres) 

Servindo a uma família de alta posição, era um moço cuja figura inteligente e fina surpreendia por sua distinção; nada, em suas maneiras, expressava baixeza; seu ardor para o serviço dos seus senhores nada tinha dessa obsequiosidade servil, própria das pessoas dessa condição. Voltando, no ano seguinte, à casa dessa família, não vimos mais o rapaz e perguntamos se o haviam despedido. “Não, responderam-nos: ele foi passar alguns dias na sua terra natal, e lá ele morreu. Nós o lamentamos muito, pois era um excelente sujeito, e tinha sentimentos verdadeiramente acima de sua posição. Ele nos era muito apegado, e nos deu provas de grande devotamento.”
Mais tarde, veio-nos o pensamento de evocar esse jovem rapaz, e eis o que ele nos disse:
“Na minha penúltima encarnação, eu era, como se diz na terra, de muito boa família, mas arruinada pelas prodigalidades de meu pai. Fiquei órfão muito jovem e sem recursos. Um amigo do meu pai me recolheu; criou-me como seu filho e me proporcionou uma bela educação, da qual fiquei um pouco vaidoso. Esse amigo é hoje o Sr. G…, ao serviço do qual me viste. Eu quis, em minha última existência, expiar meu orgulho nascendo numa condição servil, e ali encontrei a ocasião de provar meu devotamento ao meu benfeitor. Cheguei mesmo a salvar-lhe a vida sem que ele jamais tenha suspeitado. Era ao mesmo tempo uma prova da qual saí vitorioso, pois tive força bastante para não me deixar corromper pelo contato de um meio social quase sempre vicioso; apesar dos maus exemplos, mantive-me puro, e agradeço a Deus, porque fui recompensado pela felicidade de que gozo.”

P. Em que circunstâncias salvastes a vida de G…?

R. Por ocasião de um passeio à cavalo, em que eu o seguia sozinho, percebi que uma grande ávore tombava ao seu lado sem que ele percebesse; eu o chamei soltando um grito assustador; ele se voltou prontamente, enquanto a árvore caiu aos seus pés; sem o movimento que provoquei, ele teria sido esmagado.

O Sr. G…, a quem o fato foi relatado, dele se lembrou perfeitamente.

P. Por que morreste tão jovem?

R. Deus julgou minha prova suficiente.

P. Como pudestes aproveitar essa prova, uma vez que não tínheis lembrança da causa que a havia motivado?

R. Na minha humilde posição ainda me restava um instinto de orgulho que fui bastante feliz para dominar, o que fez com que a prova me fosse proveitosa, sem o que eu ainda a teria que recomeçar. Meu Espírito se lembrava, em seus momentos de liberdade, e daí me restava, ao despertar, um desejo intuitivo de resistir às minhas tendências que eu sabia serem más. Tive mais mérito lutando assim, do que se tivesse lembrado claramente do passado. A lembrança de minha antiga posição teria exaltado meu orgulho e me teria perturbado, ao passo que tive que combater apenas os arrebatamentos de minha nova posição.

P. De que serviu terdes recebido uma brilhante educação, uma vez que em sua útima existência não vos lembráveis dos conhecimentos que havíeis adquirido?

R. Esses conhecimentos teriam sido inúteis, um contra-senso mesmo em minha nova posição; eles ficaram latentes, e hoje eu os retomo. No entanto, eles não me foram inúteis, porque desenvolveram minha inteligência; instintivamente eu tinha o gosto pelas coisas elevadas, o que me inspirava repugnância pelos baixos e ignóbeis exemplos que tinha sob as vistas; sem essa educação, eu teria sido apenas um criado.

P. Os exemplos de servidores devotados aos seus senhores até à abnegação, têm por causa relações anteriores?

R. Não duvideis; é, pelo menos, o caso mais comum. Esses servidores são, algumas vezes, membros da família, ou, como eu, agradecidos que pagam uma dívida de reconhecimento, cujo devotamentos os ajuda a avançar. Não imaginais todos os efeitos de simpatia ou antipatia que essas relações anteriores produzem no mundo. Não, a morte não interrompe essas relações, que se perpetuam frequentemente de século em século.

P. Por que esses exemplos de servidores devotados são hoje tão raros?

R. É necessário acusar o espírito de egoísmo e de orgulho do vosso século, desenvolvido pela incredulidade e as ideias materialistas. A fé verdadeira é levada pela cupidez e o desejo de ganho, e com estes o devotamento. O Espiritismo, conduzindo os homens ao sentimento do verdadeiro, fará renascer as virtudes esquecidas.

Nada melhor do que este exemplo para evidenciar o benefício do esquecimento das existências anteriores. Se o Sr. G… tivesse se lembrado do que havia sido seu jovem criado, teria ficado muito constrangido com ele, e não o teria conservado naquela condição; teria assim entravado a prova que foi proveitosa para ambos.

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