Inteligência prejudicial

“Bem-aventurados os pobres de espírito, pois que deles é o Reino dos Céus.”

(Mateus, 5:3.)

Ao analisar esse versículo, no capítulo VII de O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec destaca a singularidade do ensinamento de Jesus, sem ser compreendido pela maioria dos indivíduos, que zombam dessa máxima, acreditando que o Mestre se refere aos falhos de inteligência e não aos humildes, os verdadeiros eleitos que haverão de conquistar o reino de Deus em seus corações:

 Os homens de saber e de espírito, no entender do mundo, formam geralmente tão alto conceito de si próprios e da sua superioridade, que consideram as coisas divinas como indignas de lhes merecer a atenção. […] Ou, se condescendem em admiti-la, contestam-lhe um dos mais belos atributos: a ação providencial sobre as coisas deste mundo, persuadidos de que eles são suficientes para bem governá-lo. Tomando a inteligência que possuem para medida da inteligência universal, e julgando-se aptos a tudo compreender, não podem crer na possibilidade do que não compreendem. Consideram sem apelação as sentenças que proferem.1

As palavras do Mestre se resumem nisto: o verdadeiro cristão deve possuir simplicidade de coração e modéstia de espírito, sendo este preferível ao sábio que mais crê em si do que em Deus. Como avaliar a conduta dos espíritas à luz desse chamamento? A noção que possuem de suas responsabilidades, quanto à lei de ação e reação no esforço que desenvolvem para vencer as fraquezas e as mazelas espirituais, os torna conscientes para compreender o verdadeiro sentido desse axioma?

 O Espiritismo aconselha-nos a levar para o plano espiritual, ao desencarnarmos, sobretudo, as conquistas morais obtidas ao longo das existências, quando estamos cientes da importância desse objetivo. No entanto, mesmo assim,nem sempre conseguimos comprovar a qualidade do que amealhamos como tarefeiros devotados e perseverantes nas ações que executamos nas hostes espíritas. Acabamos chegando ao mundo espiritual privados de muitas coisas, transformando-nos em Espíritos insatisfeitos e enfermiços, preferindo cultivar o sentimento de frustração pelo tempo mal aproveitado a aceitar as evidências de que nos deixamos envolver pela vaidade, sem saber como seguir os conselhos apontados pela Revelação Espírita para que não nos deixássemos dominar pelo orgulho e pela ambição, esquecidos também de recorrer ao Evangelho de Jesus, nos momentos de dúvidas e inquietações, na interpretação segura dada aos ensinos cristãos, especialmente quando conjugados ao fulgor da Doutrina dos Espíritos.

 Não é fácil vencer o orgulho, que tem originado muitos sofrimentos para aqueles que o cultivam, ou que o superestimam, fazendo-os cegos por não admitirem os próprios defeitos. A excessiva inteligência prejudica certos elementos talentosos, que a utilizam não para serem úteis à causa do Espiritismo, mas se deixam levar pelos ímpetos da presunção, causando muitos problemas para a ordem e o equilíbrio do trabalho a realizar, procurando, a todo custo, impor suas opiniões e seus pontos de vista. Alertam-nos os Espíritos superiores sobre a missão do homem inteligente na Terra:

 Não vos ensoberbais do que sabeis, porquanto esse saber tem limites muito estreitos no mundo em que habitais. Suponhamos sejais sumidades em inteligência neste planeta: nenhum direito tendes de envaidecer-vos. Se Deus, em seus desígnios, vos fez nascer num meio onde pudestes desenvolver a vossa inteligência, é que quer a utilizeis para o bem de todos […]. A inteligência é rica de méritos para o futuro, mas sob a condição de ser bem empregada. Se todos os homens que a possuem dela se servissem de conformidade com a vontade de Deus, fácil seria, para os Espíritos, a tarefa de fazer com que a Humanidade avance. Infelizmente, muitos a tornam instrumento de orgulho e de perdição contra si mesmos. […]2

 Os elogios exagerados, “expressando outra forma de aplaudir, podem ser o joio do orgulho ameaçando o trigo da humildade que desponta, fragilmente, na sementeira do coração humano”.3 Sem dúvida, a palavra franca e encorajadora motiva o seareiro esforçado a prosseguir na tarefa maior, mas sem bajulações ou lisonjas.

 O serviço evangelizador propiciado pela Doutrina Espírita, inicialmente, deve minorar o sofrimento e a ignorância moral das almas em provação no orbe terreno, contribuindo para a renovação de seus sentimentos e daqueles que atuam em benefício da verdadeira caridade, sem que o raciocínio interfira, em demasia, no gesto a ser conferido pelo coração. Diminuir a aflição, a dor e a luta expiatória dos irmãos necessitados exige de nós os melhores testemunhos de amor fraterno. O espírita que se nega ao concurso afetuoso prejudica a si mesmo. Infelizmente, há pessoas cujas palavras e gestos demonstram meiguice, simpatia e humildade, mas escondem a arrogância em seus corações. Não expressam, realmente, o que vem do íntimo.

 Entre os adeptos das várias religiões, e do próprio Espiritismo, encontram-se determinados obreiros que gostam de ostentar erudição e intelectualismo pernicioso, compenetrados de que possuem supremacia sobre os demais. O orgulho oblitera a razão, impossibilitando-lhes receber as verdadeiras inspirações do Plano Maior. Sobre o problema, os amigos espirituais, advertem-nos:

 O Espiritismo é e tem de ser cultivado pela humildade laboriosa. Sem humildade não há espírito evangélico nem há solidez doutrinária […]. […] Não é o cérebro que aproxima a criatura humana de Deus, mas o coração. Cérebro, apenas, não traduz vibração sentimental, porque somente o coração sabe sentir. O ideal é a união do cérebro com o coração, predominando este sobre aquele. Quando o cérebro possui ascendência sobre o coração, a frieza calculista põe limites aos ritmos do sentimento e pode até anulá-los.4

 Há homens que julgam indefectíveis os seus argumentos, apoiando-se sempre em suas ideias e pensamentos. A esse respeito, Allan Kardec assevera:

 […] O que se chama razão não é muitas vezes senão orgulho disfarçado e quem quer que se considere infalível apresenta-se como igual a Deus. […]5

 Não é possível aprender sem reconhecer o que ignoramos, assimilando as orientações que o Alto nos faculta por meio de diferentes processos de experiências existenciais. Nessas horas, em razão da tarefa executada com simplicidade, é possível distinguir a diferença entre o proveitoso trabalho dos companheiros que, pela inceridade com que se comportam, são inspirados por intermédio de fraternas e anônimas entidades, e a eloquência e o brilhantismo exagerados, conforme as atitudes enfatuadas que demonstram alguns tarefeiros, pela palavra, pela escrita, ou no atendimento de outras contribuições para execução de ações em benefício da Casa Espírita.

 É imprescindível acrescentar que o estudo da Doutrina, de acordo com a recomendação de Kardec, “só pode ser feito com utilidade por homens sérios, perseverantes, livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resultado”,6 tendo, contudo, o cuidado necessário na análise e na compreensão dos conteúdos espíritas, de modo a não cometermos equívocos de interpretação, utilizando-os em proveito próprio para contentar nossa vaidade e nossa ambição.Afirma o Espírito Emmanuel que a falta de modéstia faz surgir na alma humana os “doentios enquistamentos de sentimento, […] que se responsabilizam pela discórdia e pela delinquência em todas as direções”,7 acrescentando:

 Sem o reflexo da humildade, atributo de Deus no reino do “eu”, a criatura sente-se proprietária exclusiva dos bens que a cercam, despreocupada da sua condição real de espírito em trânsito nos carreiros evolutivos e, apropriando-se da existência em sentido particularista, converte a própria alma em cidadela de ilusão, dentro da qual se recusa ao contato com as realidades fundamentais da vida.7

 Sejamos autênticos e leais na busca do adiantamento espiritual, pois “reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más”,8 convertendo-nos em trabalhadores afáveis, francos e úteis, servindo sem constrangimentos em favor de todos, em permanente renovação para o bem!

CLARA LILA GONZALEZ DE ARAÚJO

 Referências:

1KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 25. ed. bolso. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB Editora, 2012. Cap. 7, it. 2.

2____. ____. It. 13.

3PERALVA, Martins. Estudando o evangelho. 11. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB Editora, 2012. Cap. 54, p. 252.

4MENDES, Indalício. Rumos doutrinários. 3. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB Editora, 2010. Cap. Intelectualismo pernicioso, p. 47.

5KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 92. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB Editora, 2012. Introdução, it. 7, p. 38.

6____. ____. It. 8, p. 38.

7XAVIER, Francisco C. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 18. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB Editora, 2010. Cap. 24, p. 101-102.

8KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 25. ed. bolso. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB Editora, 2012. Cap. 17, it. 4, p. 295.

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