Se pisam no meu calo!…

 

 

Reformador, fevereiro / 1997 . FEB

 

Autor: Geraldo José de Souza

É comum ouvirmos, em tom de ameaça, a expressão: “Sou muito bom, mas, se pisam no meu calo!…”, dita jactanciosamente, como se fosse qualidade a preservar, e de que se orgulha o autor, sempre com os brios à flor da pele. Contudo, à luz do Evangelho, devíamo-nos envergonhar de emiti-la e de praticar a violência que expressa, uma vez que revela desequilíbrio e o orgulho que nos cumpre erradicar de nossas almas enfermas. Quando o sangue nos ferve, por qualquer ofensa ao orgulho ferido, e nos sentimos impelidos ao ódio e ao revide, sem medir conseqüências, é sintoma de grave enfermidade espiritual, sobretudo quanto à sutileza com que se disfarça aos nossos olhos, figurando com aparência de virtude a preservar. Se somos daqueles que andamos armados, então a situação é gravíssima! É o caso de urgente internação, para tratamento mental, para bem nosso e da comunidade. Afirma-nos sabiamente Emmanuel!


“O egoísmo, chaga da humanidade, tem que desaparecer da Terra, a cujo progresso moral obsta. (…) esse filho do orgulho é o causador de todas as misérias do mundo terreno. É a negação da caridade e, por conseguinte, o maior obstáculo à felicidade dos homens. (…) É (…) à invasão do coração humano por essa lepra que se deve atribuir o fato de não haver ainda o Cristianismo desempenhado por completo a sua missão.(…)” 


Ora, se o filho é considerado ‘lepra’ e “é o causador de todas as misérias humanas”, o que não será o indigitado pai, o orgulho… que nos leva a nos julgar superiores aos demais. É fonte da maioria dos males que nos atribulam a vida. Para eliminá-lo e adquirir humildade, é indispensável erradicarmos do coração essa lepra, único antídoto que o destrói, à semelhança da luz, que silenciosa e suavemente afasta a treva.
O Espírito Lacordaire, incisivo, assinala:


“A humildade é virtude muito esquecida entre vós. (…) sem humildade, podeis ser caridosos com o vosso próximo?… este sentimento nivela os homens, dizendo-lhes que todos são irmãos, que se devem auxiliar mutuamente, e os induz ao bem. Sem a humildade, apenas vos adornais de virtudes que não possuís, como se trouxésseis um vestuário para ocultar as deformidades do vosso corpo (…).
O orgulho é o terrível adversário da humildade. (…)
Não é teu igual o infeliz que passa fome? (…) lembra-te de que a morte não te poupará, como a nenhum homem (…)”
À vista de tantas admoestações para tão grave falta (o orgulho), cumpre-nos identificar, em nós, aquilo que a alimenta e a indiferença que a perpetua, para atacar, prontamente, esse mal:
“As principais reações e características do tipo predominantemente orgulhoso são:


a) Amor-próprio muito acentuado: contraria-se por pequenos motivos;
b) Reage explosivamente a quaisquer observações ou críticas de outrem em relação ao seu comportamento;
c) Necessita ser o centro de atenções e fazer prevalecer sempre as suas próprias idéias;
d) Não aceita a possibilidade de seus erros, mantendo-se num estado de consciência fechado ao diálogo construtivo;
e) Menospreza as idéias do próximo;

f) Ao ser elogiado por quaisquer motivos, enche-se de urna satisfação presunçosa, como que se reafirmando na sua importância pessoal;
g) Preocupa-se muito com a sua aparência exterior, seus gestos são estudados, dá demasiada importância à sua posição social e ao prestígio pessoal;
h) Acha que todos os seus circunstantes (familiares e amigos) devem girar em torno de si;
i) Não admite se humilhar diante de ninguém, achando essa atitude um traço de fraqueza e falta de personalidade;
j) Usa da ironia e do deboche para com o próximo nas ocasiões de contendas.”

 Não falta clareza e sinceridade nas orientações espirituais. Eis o que diz o Espírito Adolfo, bispo de Argel, sem meias palavras: 

“Homens, por que vos queixais das calamidades que vós mesmos amontoastes sobre as vossas cabeças? (…) Generaliza-se o mal-estar. A quem inculpar, senão a vós que incessantemente procurais esmagar-vos uns aos outros? Não podeis ser felizes, sem mútua benevolência; mas, como pode a benevolência coexistir com o orgulho? O orgulho, eis a fonte de todos os vossos males.” Com energia inusitada e franqueza quase rude, no estilo “sim, sim; não, não” – ainda mais por
integrar o capítulo Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos – o Espírito Lázaro previne-nos, ainda em 1863, ano distante dos tempos apocalípticos ora vividos:
“Ai do espírito preguiçoso, ai daquele que cerra o seu entendimento! Ai dele! porquanto nós, que somos os guias da Humanidade em marcha, lhe aplicaremos o látego e lhe submeteremos a vontade rebelde, por meio da dupla ação do freio e da espora. Toda resistência orgulhosa terá de, cedo ou tarde, ser vencida.”
Quantos poderosos já mandaram na Terra de forma absoluta, ao longo da história humana?
Onde estão eles, apesar de toda a pompa de que se cercaram?
Jesus, contudo, chegou humildemente, numa manjedoura, entre pastores e animais, sem uma pedra onde repousar a cabeça, e nos trouxe mensagem de Amor e Paz. Os primeiros vieram precedidos de armas, lutas e multo sangue. Aqueles se impunham pela força, pela violência, pela esperteza. O Mestre busca conquistar-nos, sem violentar nossas consciências, sem impor, mas, sim, pela compreensão do amor, da fraternidade, da humildade, da mansuetude. Os reis do mundo buscam o domínio exterior, espalhafatoso, sempre transitório. Jesus quer nos conceder a posse do reino de Deus e nos vem buscar o coração, conquistando-nos de forma definitiva, convertendo-nos, a pouco e pouco, à compreensão da verdade. Respeita nossas limitações. Dirige-se aos humildes de coração, que não se iludem com o lado externo da vida, que alimentam em seus corações fé sincera em Deus, que Nele confiam, que a Ele se entregam, fazendo sua parte, trabalhando e orando, agradecendo-lhe por tudo. Aos orgulhosos, deixa a pesquisa dos segredos da Terra. “E revela os do céu aos simples e aos humildes que diante d’Ele se prostram.” Silenciosa e imperceptivelmente, Ele trabalha nossos corações e nos transforma lentamente, no ritmo de nossa compreensão e aceitação. Faz-nos viver experiências necessárias às mudanças que devemos realizar em nós mesmos, buscando romper nosso comodismo. Age sem pressa e de forma totalmente anônima, a ponto de muitos negarem Sua existência. Convém-nos, pois, aderir, ainda que tardiamente, ao Seu programa renovador. O orgulho independe da condição social: há orgulhosos entre poderosos e ricos como os há entre pobres (aparentemente humildes, pois que humilde é a sua condição social); assim como há, entre todos eles, pessoas humildes e submissas aos desígnios de Deus. Porque as circunstâncias exteriores da vida (posses, posição social, poder, beleza, saúde física, etc.) são passageiras, ilusórias, cumpre-nos despertar para extirpar esse “calo” da alma, que nos mantém, há séculos, na retaguarda.E ninguém mais o pisará, quando deixar de existir em nossos corações.

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