A NECESSIDADE DO AUTOCONHECIMENTO

Claudia Cardamone e Elio Mollo

A Doutrina Espírita ensina que é através das reencarnações sucessivas que vamos conquistando o nosso progresso espiritual. Por isso, devemos aproveitar cada uma delas para nos tornamos cada vez melhores em todos os sentidos.

No Espiritismo ouvimos falar muito que FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO. Porém, a caridade deve ser entendida, também, como possibilidade de ser usada em benefício próprio. Não de forma egoísta, mas como uma ferramenta que exige certo esforço, ou seja, vontade própria, para se alcançar uma transformação íntima compatível com a capacidade evolutiva em que estamos. Com isso, ganhamos nós e todos dos que fazem parte do nosso meio de relação.

De nada vale buscarmos melhorar o nosso planeta sem antes melhorarmos a nós mesmos, sem procurar nos educar, que é o conjunto dos hábitos novos e melhores, adquiridos através da vontade e do esforço. Não se trata de esforço físico, mas de firme controle de espírito, de um empenho que não sofra excessiva solução de continuidade. “Excessiva”, porque, na verdade, também não podemos estar “continuamente” empenhados na transformação de nós mesmos. Deve haver, isto sim, uma persistência de propósito, que chamamos esforço.

Na verdade nós não nos conhecemos e sofremos com as consequências desse desconhecimento. Podemos observar isso no nosso dia-a-dia. Quando cometemos algum tipo de falta. É desculpa para todo lado, como por exemplo: “Puxa vida eu não sabia disso…”; “Eu não sei como fui fazer isso…”; etc. E assim vamos inventando mil e uma desculpas pelos erros que cometemos! Sofremos muito com isso, ficamos estressados, irritadiços, criamos carrancas e escondemos o sorriso. Num estado mais grave, este auto desconhecimento próprio, destroem amizades, ambientes de trabalho, lares, etc.

Por que tudo isso acontece? O que nos impede de empreendermos o esforço que autoconhecimento exige? Ora, como é que conseguimos ver defeitos mínimos nos outros? Será que não é porque também os temos, e talvez, maiores do que aqueles de quem censuramos? O fator primordial que nos leva para não desejar conhecer e corrigir essas falhas, inclusive, não aceitá-las, provém do nosso orgulho. É o orgulho que nos ilude em pensar que somos melhores do que outros.

Os Espíritos superiores disseram no “O Livro dos Espíritos”, obra codificada por Allan Kardec, em respostas as questões 785 e 811a, que o egoísmo e orgulho são as duas chagas que emperram o progresso da humanidade, referindo-se com isso ao progresso moral, pois o intelectual se efetua sempre.

Na questão 919 de “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec pergunta aos Espíritos qual seria o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal? Os espíritos responderam: “Um sábio da antigüidade vo-lo disse: “Homem, Conhece-te a ti mesmo.”

Esse sábio da antigüidade era nada mais nada menos do que o filósofo Sócrates, que foi um sábio grego, e morreu em 399 antes de Cristo, aos 71 anos de idade. Assim como o Cristo, Sócrates nada deixou escrito, o que ensinou veio a nós pelas mãos de outros, sobretudo do seu dileto discípulo Platão. Nada pregava propriamente, mas conduzia seu ouvinte espontâneo, por meio de raciocínio, a conhecer a si mesmo, de modo que passasse a se preocupar com o tornar a alma cada vez melhor.

Allan Kardec ainda não contente com a resposta insistiu com uma outra pergunta: “Conhecemos toda a sabedoria desta máxima, porém a dificuldade está precisamente em cada um conhecer-se a si mesmo. Qual o meio de consegui-lo?” – Santo Agostinho, respondendo a questão nos fornece um valioso conselho:

“Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: no fim de cada dia interrogava a minha consciência, passava em revista o que havia feito e me perguntava a mim mesmo se não tinha faltado ao cumprimento de algum dever, se ninguém teria tido motivo para se queixar de mim. Foi assim que cheguei a me conhecer e ver o que em mim necessitava de reforma. Aquele que todas as noites lembrasse todas as suas ações do dia e se perguntasse o que fez de bem ou de mal, pedindo a Deus e ao seu anjo guardião que o esclarecessem, adquiriria uma grande força para se aperfeiçoar, porque, acreditai-me, Deus o assistirá. Formulai, portanto, as vossas perguntas, indagai o que fizeste e com que fito agistes em determinada circunstância, se fizeste alguma coisa que censuraríeis nos outros, se praticastes uma ação que não ousaríeis confessar. Perguntai ainda isto: Se aprouvesse a Deus chamar-me neste momento, ao entrar no mundo dos Espíritos, onde nada é oculto, teria eu de temer o olhar de alguém? Examinai o que pudésseis ter feito contra Deus, depois contra o próximo e por fim contra vós mesmos. As respostas serão motivo de repouso para vossa consciência ou indicarão um mal que deve ser curado. Continuando diz ele, ainda: O conhecimento de si mesmo é portanto a chave do melhoramento individual.”

Ainda no “O Livro dos Espíritos” os Espíritos Superiores disseram: “Amai-vos uns aos outros, eis toda a lei, lei divina, mediante a qual governa Deus os mundos.” E, Jesus, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou, Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós. (Lucas 17: 20 a 21)

Recordemos a palavra dos instrutores de Allan Kardec, na Codificação do Espiritismo quando inquiridos sobre “por que indício se pode reconhecer uma civilização completa”, através da questão número 793, constante da obra supra citada, deles recolheu a seguinte resposta:

“Reconhecê-la-eis pelo desenvolvimento moral. Credes que estais muito adiantados, porque tendes feito grandes descobertas e obtidos maravilhosas invenções; porque vos alojais e vestis melhor do que os selvagens. Todavia, não tereis verdadeiramente o direito de dizer-vos civilizados, senão quando de vossa sociedade houverdes banido os vícios que desonram e quando viverdes, como irmãos, praticando a caridade cristã. Até então, sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da civilização”.

Quando Jesus fala que o Reino de Deus não vem até nós com aparências exteriores, está justamente dizendo que não adianta fingir o que não somos, é necessário, como diz Kardec no capitulo XVII, item4, de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, nos transformar moralmente, nos esforçar para domar nossas inclinações más. Então, estaremos trabalhando no conhecimento de nós mesmos e construindo o Reino de Deus entre nós, Bastando limparmos o caminho para que ele possa surgir.

O equilíbrio, tal como foi estabelecido por Deus no universo, deve ser restabelecido pelo homem em seu mundo psicológico, sob orientação do amor, para que ele compreenda Deus em si.

Tal é a síntese do mistério inscrito na fachada do antigo templo de Delfos: “Homem, conhece a ti mesmo” e “Nada em Demasia”.

Como podemos verificar, não é fugindo de nós mesmos que vamos ter paz, mas procurando a melhor forma de restabelecer esse amor dentro de nós para que sejamos feliz onde nos encontrarmos:

O festejado escritor italiano G. Papini, convertido ao catolicismo, conta a história de um homem que não era feliz, porque achava que ali onde morava não era o seu lugar.

Um dia resolveu sair pelo mundo à procura da felicidade.

Fechou a pobre casa e partiu com a disposição de percorrer todos os caminhos da terra, sem descansar, até encontrar o lugar de ser feliz.

Aonde chegava, reunia um pequeno grupo a quem explicava os planos que tinha para ser feliz.

Afirmava que seus seguidores seriam felizes na posse de regiões gigantescas, onde haveria montes de ouro…

Mas o povo lamentava e ninguém o seguia… No dia seguinte, novamente partia. Assim, foi percorrendo cidades e cidades, de país em país, anos a fio.

Mas, um dia percebeu que estava ficando velho, sem ter encontrado a terra da felicidade. Seus cabelos tingiam-se de branco, suas mãos enrilhadas, roupas esfarrapadas, calçados aos pedaços. Além disso, estava cansado de procurar a felicidade, tão inutilmente.

Enfim, parou frente a uma casa antiga, janelas de vidro já quebrados, o mato cobrindo o canteiro do jardim, poeira invadindo salas e quartos.

Dentro, os pardais haviam construído seus ninhos.

E, de logo, pensou que naquela casa desprezada e sem dono, ele edificaria a sua felicidade: arrumaria o telhado, colocaria novas janelas e vidros novos, cuidaria do jardim, pintaria as paredes, as portas… E cantaria a canção da felicidade.

Tomou uma decisão: vou tratar de ser feliz aqui.

E o homem cansado de tantos caminhos foi andando até chegar ao portão do jardim. Atravessou-o. Empurrou a porta da casa e entrou. Mas, de repente, parou e ficou imóvel, qual estátua de pedra: aquela casa era a sua própria residência que ele abandonara, há tantos anos, à procura da felicidade.

A verdade é que na maioria das vezes procuramos por Deus onde sabemos que não poderemos encontrá-lo, porém, se o procurássemos dentro de nós mesmos, no segredo do nosso coração, no critério de nossa razão, já o teríamos encontrado! Porque Deus está em toda a parte onde a Sua grandeza puder se manifestar, e jamais nos prejuízos que inventamos para infelicitar a nós próprios e ao nosso próximo. Suas leis são claras e simples. Cumpre, no entanto, que o saibamos procurar com atenção e respeito, a fim de poder encontrá-lo! Tal aquisição — a convicção, o respeito pela idéia de Deus — será obra do nosso esforço por nós. É favor que não receberemos de outrem. Quando muito, poderá alguém apontar-nos o caminho a seguir, para encontrá-lo nos acontecimentos de nossa própria vida, e assim nos esclarecermos na sua luz…

Nos trabalhos de desobsessão vemos muitos espíritos desencarnados sofrendo, pois que se encontram distante da Lei Divina ou Natural, não entendem porque sofrem, e quando alguém tenta ajudá-los não querem enxergar, se revoltam, blasfemam contra tudo e contra todos, até que vencidos no egoísmo e no orgulho resolvem orar a sua maneira. Cansados de fugir de suas mazelas resolvem tirar o que possuem de melhor em si. Olham para o alto e oram com sinceridade. Nesse momento as impurezas que atrapalhavam a visão diminuem, a limpeza se faz automaticamente e vêem o que não viam antes; um mundo diferente, um mundo melhor. Vêem aqueles que estiveram sempre dispostos a ajudá-los – e não enxergavam, pois estavam cegos. Um gesto de agradecimento acontece e, seguem com confiantes com os espíritos instrutores. Têm eles agora a amostra do Reino de Deus. Porém, os mentores lhe dizem que isso é somente uma amostra. É necessário construir esse Reino dentro de cada um através de esforço próprio. Assim, reanimam-lhes as forças, preparam-lhes o futuro, auxiliando-os a planejar uma nova reencarnação. Novas lutas os aguardam, pois não basta só o arrependimento e necessário a reparação dos erros. É o Amor Divino lhes prestando misericórdia através de nova oportunidade, pois é necessário o esforço, a paciência, a persistência para conhecerem-se a si mesmos e encontrarem o Reino de Deus, e sentirem a plenitude da paz e da felicidade dentro de si.

FONTES:
Allan Kardec – O Livro dos Espíritos
Allan Kardec – O Evangelho Segundo o Espiritismo
Emmanuel – Fonte Viva – Renovemo-nos Dia a Dia
Emmanuel – Segue-me – Luz em vossas mãos
J. Herculano Pires – O Homem Novo – Desaparece o Sectarismo a Medida que se Desenvolve o Cristianismo

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Uma resposta para A NECESSIDADE DO AUTOCONHECIMENTO

  1. Waldemir Guedes da Silva disse:

    perfeito, concordo com tudo que foi dito é assim que ocorre. obrigado !

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