LOCAIS ASSOMBRADOS, presença e ação dos espíritos

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O capítulo intitulado “Locais assombrados”, contido em O Livro dos Médiuns, leva necessariamente ao problema da presença dos Espíritos entre os que vivem ainda ligados ao corpo de carne, da relação constante entre o mundo corpóreo e o mundo invisível, na influência decisiva sobre o desenvolvimento da sociedade, das ideias, no imaginário religioso, que se constitui lentamente. Sendo essa presença um fato natural, pode-se deduzir que toda a sociedade que se constitui tem necessariamente a sua parte invisível, a sua população espiritual que se assoma a sua parte visível, corporificada na matéria densa. É na compreensão dessa problemática que melhor apreendemos a importância do Espiritismo.

O Espiritismo estabelece no mundo o advento da mediunidade positiva, ou seja, a compreensão dos problemas espirituais segundo os critérios da razão, a investigação da parte extra-sensível e invisível da realidade que o homem está inserido mas que lhe escapa pela apreensão restrita de seu sensorium físico. É a mediunidade, faculdade inerente ao homem, que rigorosa e racionalmente aplicada, se afigura como um microscópio que desvela parcialmente a realidade invisível, porém circundante, em que a criatura humana está mergulhada.

A analogia que Allan Kardec estabelece entre a descoberta do mundo microscópico com a descoberta positiva do mundo invisível, e da ação dos Espíritos sobre o mundo corpóreo, é de um valor didático extremamente significativo. A afirmação de que “os Espíritos estão por toda parte” não é mera investida supersticiosa, mas uma conclusão necessária que se impõem pela observação rigorosa de suas manifestações.

Desse modo, quando se oferecem as condições necessárias, os Espíritos, por alguma razão particular, se manifestam. Isso ocorreu em todos os tempos, uma vez que são a parte espiritual da população terrena. Essas manifestações são a matéria-prima para o imaginário popular que, não conseguindo entender o fenômeno na sua naturalidade, tecem as mais variadas superstições ao longo do tempo, sobre o alicerce da ignorância, do medo e da fantasia que mais ofusca a luz natural da razão.

É dessa forma que um fato natural como qualquer outro é envolvido pelas brumas espessas da superstição e, quando encarado pela razão fria e analítica, se demonstra como um amontoado de incoerências e absurdos, de modo que os homens que cultivam essa mesma razão acabam por repelir instintivamente a crença na existência dos Espíritos, pois compreendem que seus fundamentos estão restritos apenas à vida psicológica da humanidade, que foi por muito tempo estigmatizada pelo medo do desconhecido e pela imaginação exacerbada que se sobrepunha à capacidade de raciocínio, portanto, crença oriunda da imaturidade e ignorância dos homens.

Assim, no processo histórico, há um evidente desenvolvimento dialético da questão:

a) a naturalidade das manifestações dos Espíritos, porém envolvida por crescentes camadas de superstição;

b) o desenvolvimento racional e a negação da superstição e, em consequência, a negação da existência dos Espíritos, entendida como fruto do medo e da ignorância;

c) e por fim, na síntese dos opostos, a existência dos Espíritos é novamente afirmada, porém na sua completa integridade natural, é o estabelecimento da crença em bases racionais, o que equivale dizer, a superação da superstição e da dogmática, por um lado, e do materialismo, que é o extremo da negação sistemática e igualmente perniciosa.

Esse momento superior do desenvolvimento dialético está representado no advento da mediunidade positiva, que o Espiritismo institui no mundo. Portanto, cabe ao Espiritismo remover definitivamente toda a superstição e absurdo que envolve os problemas espirituais, fazer compreender o Espírito como uma potência natural, desvelar o mundo invisível, suas leis e seus meios de relação com o mundo corpóreo, por meio da razão metodicamente aplicada. Assim, o materialismo não é o momento final e fatal do desenvolvimento histórico da razão, mas apenas uma etapa desse processo, onde o ápice se verifica justamente no período que se inicia com o Espiritismo da fé raciocinada – momento áureo da história, que se assemelha ao advento paulatino da aurora após uma prolongada madrugada.

Os sábios, temerosos de se aprisionarem novamente no imaginário confuso da superstição milenar, se agarram firmemente no materialismo, concebendo-o como um símbolo de esclarecimento que ilumina pouco a pouco a humanidade. Daí a nobreza de ser materialista, porque é sinônimo de gente esclarecida e corajosa.

Contudo, se há realmente um desejo nobre de se aproximar da verdade e da compreensão da realidade fundamental da Natureza, então a concepção materialista da vida deve ser igualmente superada pela própria razão que avança na descoberta, em termos lógicos e naturais, do Espírito como uma força imanente à dinâmica do real.

Esse é o efetivo esclarecimento, uma vez que excluindo o Espírito e a totalidade do mundo invisível é o mesmo que rejeitar as causas de inúmeros efeitos que as leis puramente materiais não podem explicar, e então se toma algo por aquilo que não pode ser, perpetuando a ignorância e a falta de conhecimento racional quanto aos aspectos espirituais da Natureza. Portanto, diante do processo histórico, o papel do Espiritismo consiste precisamente nisso: em elevar a humanidade a um nível superior de conhecimento efetivo do fator espiritual fundamental e imanente ao real.

-Referência:
Locais Assombrados. O Livro dos Médiuns,
tradução José Herculano Pires.

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