É necessário sofrer?

Sofrimento-01

Dúvida que ainda causa enganos na interpretação da doutrina espírita, o sofrimento tem sido muitas vezes motivo de identificação do espiritismo como uma doutrina que faz apologia à dor. Em agosto de 1983, edição 152, Heloísa Ferraz Pires analisou e esclareceu o assunto.

A gênese de Allan Kardec diz que “se o homem agisse sempre de acordo com as leis de Deus evitaria para si os males mais amargos e seria feliz sobre a terra”. No capítulo sobre encarnação diz que quando o espírito reencarna é para evoluir, que as várias encarnações devem fazer o ser crescer. Portanto a ideia de que provas terríveis e dores insuportáveis são indispensáveis para o indivíduo não é espírita.

Mesmo o repórter André Luiz reconhece em alguns de seus livros formas melhores de evoluir; dizendo sempre que o ser constrói seu destino, admite que o homem é quem complica sua encarnação.

Pode haver evolução sem grandes e terríveis dores? Pode e deve. A evolução deve ser um ato de amor. Se nos seres inferiores procuramos educar nossos filhos com amor, quão maior será o esforço do plano espiritual superior para nos conduzir com misericórdia, compreendendo a nossa fragilidade. Onde o espírita desenvolveu seu sadismo e masoquismo, pedindo sofrimento? Em várias obras espíritas os heróis pedem a dor e seus olhos brilham intensamente quando são atendidos. Por quê? É criação nossa a imagem de um Deus cruel que nos arrasta a provas horríveis, esperando que nos despedacemos entoando hinos de glória a seu poder. Que Deus absurdo, herança do paganismo, do judaísmo, do cristianismo que deturpamos! O Criador sabia de nossas inferioridades, como exigiria mais do que podíamos dar? As leis disciplinares existem em toda a natureza, porém são leis de compreensão. O Deus vingativo é criação nossa. Os resíduos de um passado escuro, a ignorância que nos envolve é a responsável por permanecermos amarrados às encarnações difíceis. No século 20 o homem deveria estar apto para evoluir com mais tranquilidade. Mas sua visão antropomórfica do universo o impede; somos nós que exigimos para nós o cálice amargo. Somos os juízes que não perdoam. E o que é pior: em reencarnando, trazemos dentro de nós um tremendo complexo de culpa que faz com que nos flagelemos e iniciemos difíceis processos obsessivos. O espiritismo, como elemento libertador, deve fazer o ser romper com as amarras dos séculos aprendendo a caminhar com alegria. Lutemos contra o sofrimento. Vamos usar nossa inteligência para atenuarmos nossas provas.

Abaixo a posição deprimente do ser que se estira no chão, julga-se um criminoso e brada pelo castigo. Todos erramos no tempo e no espaço. Ninguém pode acusar ninguém. Tenhamos tolerância, tenhamos caridade também com nossas inferioridades. Somos criminosos igualmente necessitados de amor. Tenhamos a certeza de que Deus nos perdoa sempre. Jesus exemplificou isso quando contou a história da mulher pecadora. Ele disse:

“Teus pecados te são perdoados; vá e não peques mais”. Jesus não disse que precisaria sofrer, penar, se arrastar pela terra chorando para ser perdoada. Nós é quem criamos essa imagem infantil de um Deus que, se não mais condena a um inferno eterno, é igualmente rancoroso, pois exige que o ser desconte seus erros suando e chorando. É o mesmo velho de barba branca que nos expulsou do paraíso ameaçando com sofrimentos incríveis. É o mesmo Deus que no paganismo aparecia na forma múltipla de deuses vingativos. A ideia continua no espiritismo e deve ser extirpada como veneno que nos tem impedido a tranquilidade na Terra.

Por que exigimos para nós a lei do ‘olho por olho, dente por dente?’ Porque devido a nossa inferioridade não conhecemos forma melhor de correção de nossas dívidas; como poderíamos evoluir auxiliando o próximo, se ainda somos excessivamente egoístas, comodistas, rancorosos e vingativos? Poderíamos caminhar à semelhança de São Francisco de Assis? Teríamos a capacidade de realizar a obra magnífica de Gandhi? Só sabemos pagar através da dor. Outrora sacrificávamos os animais, os filhos, as donzelas mais bonitas da tribo. Hoje tentamos agradar a Deus com nosso próprio sacrifício; julgamos que homenageamos Deus nos punindo, realizando jejuns sexuais, evitando a carne e o cigarro.

Que Deus ilógico, absurdo, seria esse a se preocupar com atitudes exteriores? Jeová já dissera aos hebreus: “Misericórdia quero e não sacrifício”. Como entender as leis disciplinares se não entendemos sequer de nós mesmos? Como desenvolvermos condicionamentos que nos permitam melhores formas de pagamento se deturpamos as ideias melhores que religiões cristalinas trazem até nós? Intolerantes, só entendemos leis rígidas que exigiriam séculos de sofrimento por erros momentâneos. Cruéis, só enxergamos crueldade nas leis de ‘ação e reação’. Esquecemos que toda lei tem atenuantes, desconhecemos a força de nosso pensamento que pode plasmar formas mais suaves de desenvolvimento espiritual.

Dizemos que Deus é amor, mas na verdade o tememos. Se antes o medo era o inferno agora foi substituído pelo medo do umbral, da reencarnação dolorosa. Até quando caminharemos tangidos pelo medo? Quando desenvolveremos a virtude, o prazer de agir de forma correta?

Jesus exemplificou a importância de nossos pensamentos quando libertava os indivíduos de suas doenças induzindo-os à reação orgânica através das sábias palavras: “Teus pecados te são perdoados”; nesse instante havia não só a ação curadora dos fluidos curadores de Jesus, mas também a ação da mente do indivíduo que produzia a cura. Quando cura a mulher hemorrágica diz: “Tua fé te salvou”. O evangelho nos explica que se o indivíduo tiver fé agirá como um ímã atraindo as melhoras, a saúde, a atenuação de suas provas. Jung nos explica como o complexo de culpa desequilibra o ser, provoca doenças, angústias; impede de crescer. O livro dos espíritos diz que: “Nenhuma obsessão resiste a uma vontade firme”. Muitas vezes o ser aceita a ação de entidades igualmente inferiores por se sentir culpado e deseja, nem sempre conscientemente, a punição, o castigo. O ser plasma, exige sofrimento e dor.

Muitas vezes, inapto a suportar o sofrimento, incide em outros erros e vai complicando cada vez mais suas encarnações. Como a caminhada seria mais fácil se o ser fosse consciente de seus erros e procurasse saná-los auxiliando o próximo, sacrificando-se até, se o desejasse, numa forma útil. Haveria então crescimento espiritual. A autoflagelação que praticávamos em outras épocas com o chicote, e que continuamos a realizar com sacrifícios desnecessários, não nos auxiliou muito em nossa caminhada.

O cônjuge que possui um companheiro difícil deve auxiliá-Io a crescer; há desvantagem dupla se o indivíduo aceitar todos os maus tratos, todas as desconsiderações em prol de uma evolução que seria inexistente. Os pais que sofrem incrivelmente com os filhos e não tentam auxiliá-los com energia e amor na realidade não os amam, são apenas comodistas ou procuram a evolução numa forma errada pois é uma tentativa egoísta de evolução. É obrigação de cada um contribuir para a evolução de seu próximo. Despertar em cada um a ideia de que seus direitos terminam onde começa o direito do próximo. O espiritismo não prega a acomodação, a omissão.

O espiritismo é a utilização da razão; como tal nos ensina a nos utilizarmos sempre da nossa inteligência para diminuirmos os nossos problemas, para atenuarmos nossas provas, para com energia e amor auxiliarmos os que estão ao nosso redor a também evoluírem. A filosofia espírita não prega a dor, mas o amor.

Escrito por Heloísa Ferraz Pires
Artigo publicado na edição 152 do jornal Correio Fraterno – Agosto de 1983.

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